segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Um homem chamado Curioso

         Curioso andava cansado da vida. Acreditava, com muita arrogância, que sabia demais de tudo e de todos. Não havia mais mistérios para desvendar. Andava cabisbaixo pelas ruas. Conseguia adivinhar o que as pessoas pensavam só pelo olhar delas.
         Havia a fulana da lojinha de flores que arrumava um arranjo. Ela sorria, olhava para a planta à sua frente mas, não a enxergava propriamente. Era como se olhasse para o vazio. As mãos trabalhavam automaticamente. Movia sua cabeça com movimentos curtos de leste para oeste e vice-versa. Curioso entendia que a moça da lojinha de flores recapitulava cenas com o ... namorado?? Sua expressão indicava algo como se dissesse: “Ai ... cada uma que ele faz!!!”. Curioso só não podia determinar se era algo que o rapaz do posto de gasolina, o dito namorado da florista, tinha comprado algo inusitado. Ou, talvez, inventado um novo prato?? Ou, quem sabe, uma nova posição sexual aprendida num DVD pornô que ele tinha escondido embaixo do colchão, levando a moça das flores a um gozo nababesco??? Curioso corou ao imaginar a menina e o rapaz fazendo peripécias no íntimo da alcova.
         Havia o firmamento, também. Curioso deleitava-se em olhar para o céu e, de acordo com suas observações pseudometeorológicas e metodicamente calculadas, conseguia, ou assim acreditava, interpretar as cores, as nuvens, direção do vento, molhando a ponta do dedo indicador com saliva. Conseguia prever quase que com exatidão se choveria ou não ... e o horário em que o evento pluvial ocorreria, bem como, sua duração. Ajudaria muito sua mãe a decidir se, após o digno trabalho de lavar as roupas, as deles também, as deixaria ao relento ou sob um coberto, para evitar aborrecimentos.
         Uma noite, porém, Curioso acordou suando frio de um pesadelo que o deixou demasiadamente perturbado. Ele nunca havia sido curioso pela morte. Muito menos a sua. Sonhou com um funeral, o seu. Seu corpo duro e gelado como um iceberg, pequeno e enrugado e feio. O caixão ricamente enfeitado com as mais belas flores do campo, cadeiras e ... ninguém. Nem mesmo um padre, Curioso era Católico Apostólico Romano, para celebrar a famigerada passagem “dessa para melhor”. Melhor para quem, né? Ninguém para homenageá-lo. Nem mesmo a mãe.
         A morte sempre gera uma miríade de questões a todos os seres viventes e pensantes. Mas nunca para o Curioso. Muito estranho. Ele fazia de tudo para saber de tudo. E, provavelmente, acreditava ser imortal. Mas, depois do pesadelo, só pensava na morte. Na sua, claro. Tinha que saber quando, onde, a que horas, como, por quê. Não teria estas respostas.
         Curioso ficou desesperado porque estavam aí perguntas cujas respostas nunca teve, tem ou teria. Não podia ser assim. Pois, petulantemente, sabia de tudo. Então, decidiu que saberia tudo a respeito de sua própria morte. Quando, onde, a que horas, como.

         Encontraram o Curioso morto, em sua cama, na casa da mãe, com um leve sorriso cadavérico de satisfação. Foi num domingo pela manhã. Bebeu um pout pourri de substâncias tóxicas numa determinada hora que, claro, ele havia estabelecido. O por quê? Só ele saberia. Talvez quisesse saber de tudo.

quarta-feira, 16 de março de 2016

Quatro estações


      Aprecio o verão. Gosto do calor, do céu azul, dos corpos à mostra. Gosto de ver braços, pernas de fora, à vontade. Shorts, camisas abertas. Bicicletas e pranchas de surf. Gosto de ver os troncos suados, sorvetes derretendo, óculos escuros, refrescos congelantes. Praia, piscina, ventilador, janelas abertas. Gosto de ver sorrisos e garrafinhas de água. Passeios com cachorros e com água de coco. Chuvas torrenciais e calor escaldante. Sol ardente e chapéu de palha.

     Aprecio o outono. Gosto do calorzinho resfriado, do azul royal no céu e do marrom nos pés. Gosto da meia-estação e da meia-calça. Do sapato fechado e da saia curta. Gosto do vermelho e do vinho. Cores fortes. Gosto do sol, gigante alaranjado e poluído. Suor escorrendo e brisa geladinha numa antítese deliciosa. Cachecóis pela manhã e regatas à tarde. Paletas mexicanas e sopas e caldos verdes num paradoxo harmônico e salutar. Tempo de pensar e reformular enquanto chovem folhas decadentes ao redor.

     Aprecio o inverno. Gosto do vento gelado e violento como uma faca cortando o rosto sereno em êxtase. Gosto do cinza e do brilho do céu melancólico. Dos casacos elegantes e do desconforto. Do pinhão e do vinho quente. Dos livros que nos ajudam aquecer a alma. Gosto do bolo de fubá e do chocolate quente, de Mozart e Vivaldi e sua sinfonia de inverno. Gosto do tempo cinzento nostálgico e da garoa que lava a melancolia.

     Aprecio a primavera. Gosto da chuvinha gelada, trovões e relâmpagos e do girassol. Gosto do canto desesperado do sabiá de madrugada e do brotar das gerberas, primaveras, frutas e sabores. Gosto do horizonte multicolorido, radiante e barulhento. Festival de cheiros e pios acasaladores e plantas escandalosamente frondosas.

     Quero o azul inebriante e o cinza angustiante. Quero as sandálias rasteiras e as botas elegantes. Quero o sol queimando minhas faces e a garoa me enchendo de arrepios. Quero o chá gelado e o conhaque ardendo em minha garganta. Quero o orvalho, o sereno, a noite quente sufocante, o arco-íris.

     Quero o ano todo dentro de uma caixinha. Quero abrí-la diariamente, tirar um momento e vivê-lo como se não houvesse amanhã...faça chuva ou faça sol.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

De repente a gente para e pensa...

  De repente, num cafezinho, a gente para e pensa no que podia ter dado certo ou errado. Se ter acordado cedo naquela manhã cinzenta e úmida tinha valido a pena ou não, se o esforço seria compensado.

  De repente, no meio do suquinho, dito detox, a gente para e pensa se a saúde anda importando realmente, se estão valendo a pena os cortes nas gostosuras e no sagrado bacon, as marombas, as poses na frente do espelho e malabarismos em balanças sortidas de drogarias, cada uma gritando um número diferente das demais nos fazendo ora feliz, ora com vontade de chutar o balde.

  De repente, num lanchinho vespertino, a gente para e pensa se no dia seguinte os noticiários darão furos menos abaladores, com menos violência ou sangue ou lama, com menos corrupção ou enganação para cima de um povo tão inerte, já com tanta estapafúrdia política e econômica.

  De repente, no meio de um chopinho numa noite qualquer, agradável e quente, num barzinho qualquer, numa mesa servida de gostosuras com bacon, a gente para e pensa quando é que a vida vale a pena, quando é que é bom sorrir ou chorar, amar ou odiar, agarrar com os dentes ou jogar tudo para o alto, calar ou gritar, respirar ou entorpecer.

  De repente, no meio do nada ou do tudo, da clareza ou da obscurecência, a gente para e pensa se tudo está valendo a pena, se a alma não anda pequena demais, se não deveria haver mais emoções grandes no lugar das acomodações tacanhas e rotineiras.

  De repente a gente para e pensa...e agora ???

domingo, 17 de maio de 2015

Quero ser Sir Morus


             Quero ser Thomas Morus.  Quero criar minha própria ilha utópica, a Minha Ilha Utopia. Lá, tudo funcionaria justa e perfeitamente. 
            Um lugar para ser chamado de paraíso. Paraíso para a sinceridade nua, crua e arrebatadora.
            Em Minha Ilha Utopia, quero poder dizer a verdade que se enrosca na minha garganta e me sufoca. E os outros escutam, somente. Não reagem.
            Quero reclamar do desserviço, descaso, da ignorância, da tangência. E os outros refletem, somente.
            Quero gritar que não quero, não preciso, não tenho que, não sou obrigada, não devo fazer. E os outros compreendem, somente.
            Quero ser arrogante, humilde, egoísta e solidária, quero ser individualista e comunista. Quero ser selvagem e taciturna. E os outros observam, somente.
            Quero ser, estar, parecer e aparecer. E os outros também.
            Mas, tirar a “persona” é, e sempre será, difícil.
            E, por fim, ser canonizada, aclamada e adorada.

            Não há melhor lugar do que a Minha Ilha Utopia.

terça-feira, 5 de maio de 2015

Amores perros


         Quando a porta bateu e o enfeite, ganho da tia Hermínia no último aniversário, caiu e espatifou-se, ela teve a certeza de que esta tinha sido realmente a última vez que ele sairia e não voltaria. Foi tão intenso e soberbo e violento que ela se assustou e percebeu que jamais tinha sido assim.

         Das outras vezes, ele saía, fechava delicadamente a porta e até a trancava. Ela sabia que ele voltaria ... arrependido e precisando. Flores.

Mas, agora ... vaso despedaçado.

         A porta se fechara e se selara. Os bons tempos esvaiam-se cuidadosamente pela estrutura de madeira que separava seu aconchego do mundo lá fora. Mundo cruel e vazio e insensível que o engolia para sempre ... para longe dela ... para nunca mais.

         Outros haviam aparecido e invadido. Acomodaram-se em sua casa, seu coração, sua cama. Mas, ao partirem, pediam permissão, pois o amor já não mais cabia em suas parvas vidas. Os amantes tornavam-se casmurros e o amor esmaecia. 
Imagine a paixão ... que é doença. Tudo desaparecia e eles partiam em paz. E ela ficava taciturna e feliz ... em paz.

         Mas ele ... ele era diferente. Ele era para sempre. Amor eterno. Paixão equilibrada. Corpos ardentes, sexo tântrico, gozo nababesco, gritos ensurdecedores. Dependência moral ... doença.


         Só ela não percebia. Ela não podia amar. Ela só podia ... ser.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Água que lava a alma

O poder da fé move montanhas ... alguém disse uma vez. E a fé num santo - ou santa -  nem se fala. Severo ganhou uma santinha da moça da igreja que, no fundo, queria mesmo é chamar sua atenção. Queria casar. Mas Severo só queria uma oportunidade de estar longe daquela terra nordestina, seca e arreganhada. Nem um pingo d’água em mais de um ano. Seus bois sucumbiam um a um. Miséria. Chorava ... mas suas lágrimas eram só de sal. Queria partir. Deus abandonara Severo, seus bois, sua gente. Mandava água para outros lugares.
Severo, então, levantou a santinha aos céus, e não tinha a mínima ideia de qual santa era, e implorou, “Vai santinha .... me tira daqui ... há de me tirar ... há de me tirar ...”. No dia seguinte, vendeu os dois últimos bois caquéticos. Conseguiu o suficiente para a passagem de ônibus. Arrumou a parca malinha, não tinha muito. E, com o maior cuidado, enrolou a santinha num pedaço velho de flanela. Era seu amuleto. Tinha lhe concedido um milagre. O tiraria de lá.
Grande desafio. São Paulo, a terra das oportunidades ... e das águas. Nada o seguraria nesse fim de mundo seco e rachado. Nem a moça da igreja. Esta, chorou e morreu de tristeza. Lágrimas ressequidas.
São Paulo, a selva de pedra. Muita gente e caos. Mas tinha confiança. Sobreviveria. A santinha no bolso e a fé no coração.
Sede. Água engarrafada, cara demais para um retirante miserável. Bebedouros secos. Chafarizes há muito sem uma gota de água. Meses sem chuva, racionamentos, banhos escassos. Severo não entendia o que estava acontecendo, “Onde está a água de São Paulo?”. Avistou a mais linda das Catedrais, a da Sé. Resolveu entrar e rezar um pouco. Viu que até a pia para reza estava seca, “Por quê, meu Deus ... por quê?”.
Desolado, saiu da grande igreja e olhou para o céu. Dali, olhando o horizonte, viu a imponência de um altíssimo edifício, um banco estadual outrora, e viu que, lá em cima, estaria muito mais perto do céu. Tinha outro pedido a fazer. Embrenhou-se nas ruas centrais do imenso labirinto paulistano. Perdeu-se. Perguntou. E encontrou o imenso prédio. Duas horas de espera depois, foi informado de que teria apenas cinco minutos de contemplação lá no alto. Bastava .... para salvar a humanidade.

Do mirante acima do mar de cimento preto e branco e insensível, estendeu aos céus cinzentos as mãos que embalavam sua tão querida santinha. Severo não titubeou, “Vai santinha ... manda água .... há de vir ... há de vir ...”.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Meu paraíso em "H"




Num Natal qualquer, lá pelos anos de 198..., quando eu ainda era uma criança, ganhei um presente, não me lembro de quem, com um cartão. O cartão tinha uma paisagem, uma das mais belas que eu já tinha visto. Me apaixonei à primeira vista. Para mim, era o mais próximo de um dito paraíso, apesar de não crer na existência de nenhum. O problema era que aquele lugar mágico era apenas uma pintura, como em um quadro. Será que o artista de pincéis “divinos” havia idealizado aquela vila à beira de um lago negro ou havia realmente se sentado no alto de uma montanha, com vista privilegiada, e embriagado com tal visão inebriante, pintado um lugar concreto e ontológico?

Enfim ... meu paraíso existiria ou seria apenas um sonho?

Não creio em vida após a morte. Alguém me disse, um dia, que seria legal (e, conveniente) se houvesse vida nesse “outro lado” e, melhor ainda, se pudéssemos escolher onde gostaríamos de passar a eternidade. Seria como um mundo divino e virtual. Louco. Se isso fosse possível, eu já tinha escolhido. Não seria Paris, nem o Tibete nem outro planeta. Minha morada eterna seria o meu paraíso da capa do cartão de Natal da melhor década de minha vida. H.

Algumas semanas atrás, encontrei meu paraíso. Ele existe. A vila é real. O lago negro é real. As casas, as ruas, as montanhas. Tudo está lá exatamente como em meu cartão de Natal. Não era uma imagem hipotética, fictícia. É real. É H.

Não creio em vida após a morte. Mas, se houver, estarei em H. 


terça-feira, 12 de março de 2013

Divagações Outonais

Brisa geladinha começa a soprar violentamente contra meu rosto através de minha janela gritando à minha parca existência que a mais bela e deliciosa das estações está a chegar.
Tempo, este, que me adverte que chegou a hora de reformular, repensar, reconsiderar, replanejar e apreciar o céu azul cobalto e a folhagem castanha e caindo e se espalhando com o vento. 
Época romântica e nababesca. 
Falta pouco agora .... não me contento e me delicio.

segunda-feira, 11 de março de 2013

Parva

Ela ainda não percebeu que cresceu. É ainda a filha quando já poderia ser a mãe. 
Ainda usa lápis cor-de-rosa cheio de flores quando já deveria abusar dos pretinhos 
básicos ... sem borracha numa das pontas. 
Ela adoraria estar num balanço de playground para garotinhas de dez anos, sendo que, hoje, deveria passar longe desses lugares.
Ela paquera garotos. Ela não sabe ... mas ela é a tia para eles. A dona... . 
Ela ainda chora em cenas tristes de desenho animado quando deveria estar se deliciando com longas sérios ou documentários.
Ela ainda usa roupas de cocota, querendo ser o que jamais será, quando deveria cobrir suas pernas com plenos sinais de idade um tanto avançada.
Ela precisa enxergar melhor seu mundo particular. Não percebe a triste cegueira de não aceitar que ... o tempo não para e aperta ... demasiadamente.
O obscurecimento pode levá-la a um fim triste e inócuo, insignificante.

sábado, 15 de dezembro de 2012

What if?


E se o mundo fosse realmente acabar agora? É claro que é uma ideia estapafúrdia mas, incrivelmente, existem umas cabeças semi-pensantes que realmente acreditam nessa fantasia excêntrica. No meio de uma aula dias desses, uns alunos meus quiseram discutir o que faríamos se tal fato estivesse a se concretizar de verdade. Parece-me algo imperativo a se pensar. O que fazer quando se sabe que vai morrer? Disseram muito. 
Ligariam para todos os familiares e amigos e desafetos, por que não?, e diriam o quanto os amavam e continuariam pensando neles “do outro lado”. Correriam nus pelas estradas gritando. Ligariam para ex-namorados ou namoradas para recompor mal entendidos. Comeriam tudo o que aparecesse pela frente ... nunca mais se preocupariam com dietas fora de propósito – esse seria um lado positivo do fim. Matariam alguém, só para sentir o gosto de ter a vida de outrem em suas próprias mãos. Já sonhei que matei alguém e não foi bom. Outros fariam melhor: transariam até se acabarem !!!! Outro diria que teria poucos dias para ler Thomas Mann. Um outro disse que entraria no mar e sairia nadando para nunca mais .... Outra, estouraria os miolos antes da catástrofe aniquiladora.
Perguntaram, finalmente, para mim o que eu faria. Estava rindo até então com tanta falta de bom senso e excesso de ridicularização com a própria vida prestes a se extinguir. 
Percebi abismada que não tinha resposta. 
Não ligaria para ninguém. Não prometeria encontros “do outro lado” pois não acredito que este outro lado exista. Não correria nua nem iria para a praia. Não iria querer saber dos meus ex-namorados ou amantes ou qualquer coisa que o valha. Não mataria, não sorriria e não sei se seria boa companhia para uma noite de amor. Não seria glutona nem anoréxica. Não abriria um livro ou escutaria músicas ou assistiria ao desespero da minha espécie em próxima extinção na televisão.
Não faria nada. Ficaria o tempo todo comigo mesma solitária e serena. Isolada. Tentaria adivinhar se havia valido a pena cada segundo neste pálido ponto azul prestes a virar uma bola em flamas.
Não acho que alguém me compreenderia, mas preferiria morrer sozinha. E essa ideia me confortou.

segunda-feira, 14 de maio de 2012


Pôr-do-sol na minha cidade .... me iludindo completamente ... tentando me convencer de que é calma e taciturna e casmurra ...
Não é!
É caótica e ensurdecedora e me sinto bem ....

segunda-feira, 23 de abril de 2012

O Vil Gentil


Um fio de luz iluminou o caminho quase fechado já de tanta desesperança para quem um dia sonhou conquistar o mundo, mas conquistou somente o sabor do fracasso.

Dói um coração arrependido.

Gentil, muito astuto e malandro, queria tudo de tudo e de todos. Nunca se contentava com o pouco que lhe provinha. Traição e enganação eram verbetes recorrentes de seu parco vocabulário. Todos que cruzavam seu caminho, saíam magoados ou lesados .... financeiramente.

Gentil era o rei estapafúrdio da embromação. Ao encanto de sua falácia fantasiosa, conseguia que o pobre trabalhador lhe entregasse a féria, toda ela, em troca de falsos investimentos com nomes requintados, aquém da ignorância dos mais fracos, que nem os economistas se continham e gargalhavam ao ouvir o nome de tamanha insensatez criminosa – “Fundo de Investimento de Averbação Monetária Cíclica” –, com projeções bombásticas de juros a recolher. Mas, o pobre trabalhador acreditara em Gentil e sua poderosa lábia maldita.

Gentil enganava o sexo frágil também. Rios de lágrimas correram de donzelas descartadas e desfalcadas.
Mas, foi ao acreditar na tal fragilidade que arruinou todo seu império subversivo. Tentou enamorar uma Flor, cuja flor acreditava-se intacta. Flor era rica – daria bons frutos. Apreciar uma flor com seu toque e galanteio a faz abrir-se, desabrochar e liberar todo seu néctar para o mais vil gentil. Mas Flor não tinha um néctar doce como o mel. Era mais venenoso do que cicuta. Ao provar-lhe o sabor da flor de Flor, foi completamente envenenado por completa dependência passional da delicada moça que agora o rejeita e o despreza.

Agora, Gentil, ao sabor da doentia paixão, deixa a gentileza de lado. Não consegue encarar nem mesmo os pobres trabalhadores por ele estupidamente ludibriados dias passados quaisquer.  Pudor. Humilhação.

Dói o coração arrependido de Gentil.

domingo, 18 de março de 2012

Um dia de cão

            O tempo fechou para o campeão naquele dia. Faltou luz e o alarme não tocou.  Atraso. Não havia tempo para o desjejum decente do dia-a-dia. Saiu correndo, mas o ônibus costumeiro já havia passado. Teve que esperar quarenta minutos pelo próximo ... lotado. Duas horas de viagem. Pendurado na porta. Chegaria muito atrasado ao trabalho.
            Era um pedreiro de arregaçar as mangas, mas, hoje, não poderia se orgulhar muito, tamanho o atraso. E, na correria, pegara a pior camisa ... descosturada. O chefe, gente amicíssima, o receberia de braços abertos e uma saraivada de xingamentos e humilhações, como se fosse acabar o mundo.
           Chegando à construção, um homem robusto, bonito até, lhe pediu um trocado. Usava roupas melhores que as dele. Pedinte, coitado. O campeão correu para o canteiro de obras. E, tudo aconteceu. O chefe furioso bradou com ele como um cão.  Ele levou um tombo. Rasgou as calças – as do mendigo eram melhores – e ralou os joelhos. Tinha tortas e fraquinhas pernas. Esqueceu-se da marmita. E, para piorar, um cabo se soltou e uma estrutura de ferro caiu. Tiveram que ficar até muito mais tarde para consertar o estrago. Estrago maior estava o estômago dele. Fome absurda e injusta. Ele só conseguia pensar que ser pobre era uma merda. Tinha que se esborrachar para levantar um prédio onde jamais moraria. Prédio de bacana.
            Por fim, dispensados. Iria, finalmente, para sua casa – longa viagem de volta – faminto e machucado e fedido e humilhado. Mas, esperançoso ... teria sua recompensa.
            Depois de um dia de cão, chegou à casa, banhou-se e jantou. Saciada a fome, finalmente. O campeão teria, no final das contas, sua tão merecida subida ao pódio, ao lado da amantíssima patroa. Ela olha fixamente para os olhos de tigrão do campeão e lhe dá o troféu, “nem vem que hoje não tem !!!!!”

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Que delícia te rever .......

Reencontrar um amigo de outrora, de anos, num lugar altamente improvável, é delicioso e, ao mesmo tempo, perturbador.
Memórias de encontros e desencontros, declarações, descobertas, brigas e voltas, lugares desbravados, gostos e lembranças de termos sido destemidos e ousados. Ver o nascer do sol tantas vezes. A praia era o limite. Delícia.
Diferenças. Estamos mais velhos. Rugas que insistem em mostrar a cara. O corpo já não é o mesmo. Muitas mais experiências, é claro. Mas, isso não tira o peso de que o tempo passou ... e muito ... e muito depressa. Perturbador.
Mas, a amizade e o carinho ... estes não mudaram em nada. É como uma viagem numa máquina do tempo. Apesar dos desencontros e do pouco tempo que nos falamos ... minutos ... continuamos os mesmos na essência. Maravilhoso. Lindo. Já não é mais tão perturbador.
Que delícia te rever ... saudades de você, AMIGO !!!!!!!

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

O sonho proibido

.... e quando sonhamos com algo (ou alguém) que não deveríamos ter sonhado ??? Aquele sonho em que alguém que não deveria estar em seu sonho aparece no seu momento inconsciente mais desprevenido e despreparado ??? Ele invade sua vida e sua privacidade sem aviso ou menção. Ele te olha e quer.
Mas ele não deveria estar lá. É proibido. Fere relacionamentos ... amizades. Fere a moral e os "bons costumes" mais hipócritas a que somos obrigados suportar. É por isso que é proibido.
Mas é bom .... porque é proibido. E, não deveria estar acontecendo. É bom porque ninguém jamais saberá e, ao acordar, fica só a lembrança do que aconteceu ... a lembrança do beijo ... do olhar ... to toque forte e tirano, que só aconteceu porque foi num sonho. Ao abrir os olhos .... fica o gosto na boca do que nunca poderá ser na realidade ... porque é proibido .....

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Tempos antigos

A festa foi preparada como em anos anteriores. A rua, sempre unida, foi separada em o lado que traria doces e quentão e o lado dos salgados e vinho-quente. Os participantes seriam os mesmos. No entanto, antigos moradores de tempos antigos, infâncias antigas, foram convidados e a festa, típica do  mês de junho, devota à algum santo, se tornou um revival de memórias há muito já esquecidas.
Velhos amigos inocentes e adolescentes de outrora, se encontram já maduros e mães e pais – e outros ... solteirões - e mesmo assim, com o mesmo vigor e irresponsabilidade de quando brincávamos na rua depois do colégio e a bola de voleibol batia “deliberadamente” em portões perigosos (rsrsrs). Tempos antigos que não voltam mais, mas, podem ser revividos numa roda de conversa descontraída e nostálgica.
As rugas não negam a idade já alcançada, mas revelam o quanto éramos capazes de rir de problemas banais com os “namoradinhos” das matinês. Os problemas de agora já não são tão triviais assim. Mas, rindo com as “Gatinhas da Itapera”, eles ficam mais suaves.
Agora, só falta a “Pizza” e a “fita VHS” com um aniversário de quinze anos de uma das debutantes para o retorno completo aos ótimos tempos antigos. Vai ser bom !!!!

domingo, 1 de maio de 2011

Do outro lado do mundo

Então ... foi assim: Sabrina se apaixonou por um homem distante, do outro lado do mundo. Amor virtual ... mas, se apaixonou. Trocavam carícias e delícias através de palavras. E, fotos também. Só o teclado podia sentir o verdadeiro toque ... o tesão do calor humano. E, então, a troca de telefones e a vantagem da segunda língua, aquela global, colocaram-nos em contato verbal. Que voz linda que ele tem, pensou Sabrina. Que tesão de mulher, pensou o homem distante. Ela decidiu viajar. Ele decidiu que a esperaria numa praia paradisíaca, perto de sua cidade natal, na Indonésia. Amor sem fronteiras. Ela foi para o outro lado do mundo.


Pessoalmente foi muito melhor. Ele a esperava na tal praia paradisíaca, num quiosque, drinque colorido numa mão e o celular na outra. Muito sexy, já ia ligar para ela, quando apareceu.

Ele colocou o drinque no balcão e guardou o telefone, foi até ela, a agarrou pela cintura, passou seus dedos pelo rosto dela, pelos lábios e a beijou de um jeito como ela nunca havia sido beijada. Coisa de cinema. Foi uma semana de incrível lascívia e dezenas de camisinhas num bangalô alugado. Uma das melhores de sua vida. Da dele também, disse o homem distante.

Sabrina voltou para casa extasiada com seu asiático gostoso. Embriagada de paixão.

Ele lhe mandava mensagens todos os dias. No começo, ela respondia. Mas, começou a deixar de responder algumas vezes ... e cada vez menos.

Estava em êxtase, novamente. Começara a trocar mensagens com um homem da Rússia, lindo, que lhe mandava mensagens todos os dias .......

domingo, 17 de abril de 2011

A MorfoseMeta

Greg Blatt acordou sentindo-se muito mal. Algo acontecera durante a noite. Toda a parte da frente de seu corpo, que sempre se encontrava no chão, agora incomodava ... e muito. O desconforto era tamanho que mal conseguia respirar. Tentou mexer as mãos. Mãos? O que é isso? Onde estavam suas perninhas minúsculas. Tinha, no lugar delas, dois braços enormes e uma mão com cinco dedos esquisitos ao fim de cada um deles. Só poderia estar no meio de um pesadelo, pensou Greg Blatt. Mas, e essas pernas gigantescas? Com pés e dedos, também?

E esse desconforto? Não conseguia respirar porque o chão pressionava seus pulmões. Pulmões? Desde quando insetos rastejantes possuem pulmões? Como Darwin explicaria isso? E pulmões precisam de um tronco bem mais desenvolvido, pois têm, como vizinhos, outros órgãos, como ... coração. Coração? Greg Blatt teria um coração. Que horror, pensou.

Sua numerosa família estava apavorada. Não sabia o que fazer. Seus pais tentaram, sem sucesso, dar-lhe o que comer. Levaram uns restos podres de animais mortos e fedidos. Apetitoso, dizia sua mãe, escondendo o desespero por ter o filho definhando e recusando-se a comer. Tira isso daqui, gritou Greg Blatt jogando a “comida” para longe e indignado com esse som estranho que saía de sua boca. Que língua seria essa?

Os pais não o haviam compreendido, com certeza. Pois havia balbuciado algo incompreensível. E, piorava dia a dia. Talvez não houvesse mais volta. Talvez não rastejasse sobre o lixo e a podridão nunca mais.

Talvez .... matasse seus pais.

Greg Blatt se transformara num Homo sapiens.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Palavras que nunca vêm

É difícil quando a distância é separada por apenas uma palavra. Uma palavra que poderia ser um substantivo, um verbo, um adjetivo carinhoso, qualquer coisa. Uma palavra que poderia mudar o mundo de alguém. De um mundo obscuro para um mundo com adrenalina em excesso. Afinal, palavras são poderosas.
Mas ... a palavra não foi escrita, muito menos dita. Foi escondida e silenciada.
A vida do "alguém" não mudou. Continuou no obscuro desejo de ver um simples conjunto de letras que poderia ter sido mágico. Foi trágico.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Meu medo de cada dia

O medo é como um fantasma horroroso que só eu vejo. Me persegue, me vigia, me julga por cada mínimo ato corriqueiro e leviano.


Tudo o que penso em fazer, lá vem ele me assombrar com imponência pessimista e destruidora.

Mas, sou forte, tenho stamina. Lutadora, guerreira. Sei que venço.

sábado, 26 de março de 2011

A viagem de "Los Amigos"

A vida de divorciado não é fácil para os homens. As mulheres se viram numa boa – são independentes. Mas os homens, bem .... os homens ficam perdidos.


Numa festa só para homens divorciados e sozinhos, quatro homens conversavam sobre carros. Carlos, Emanuel, Paulo César (vulgo PC) e Alfredo. Todos já além dos quarenta anos e profissionais bem sucedidos. Só não haviam tido sucesso no amor. Mas, não conversavam sobre isso ... jamais.

Conversa vai ... conversa vem, uma viagem seria uma ótima ideia. Só eles, os homens. Os quatro cavaleiros da solteirice. Livres para fazer o que quisessem. Precisariam apenas ajustar as férias para que os quatro, juntos, pudessem curtir uma semana em algum lugar badalado regado a muito álcool e mulheres gostosas. Decidiram ... Floripa seria o destino dos “garotões” perdidos. Partiram.

Voltaram. Frustração total. Um dos melhores lugares para diversão com as mulheres mais maravilhosas e eles, os divorciados, simplesmente não sabiam o que fazer. Esqueceram de fazer a lição de casa: aprender a paquerar no século XXI. Só deram fora. Espantavam todas as meninas com quem tentavam papear. Vinte e tantos anos casados os desligaram do mundo. Estavam perdidos.

Numa happy hour, depois de alguns drinks e reclamações sobre a terrível semana de bagaceira, Carlos, Emanuel, Paulo César (vulgo PC) e Alfredo decidiram que era melhor ligar para as ex-esposas ... só para ver como elas estavam.

sexta-feira, 25 de março de 2011

O mundo acaba em ..... 5 bilhões de anos ... nisso eu acredito !!!!!!

Semana passada, eu perguntei a um aluno meu, XXXX, qual era o seu maior medo. Ele olhou bem fundo nos meus lindos olhos azuis e disse, “olha, Dri, pra ser sincero, tenho medo do fim do mundo ... no ano que vem”. Ri, mas começamos a discutir essa louca paranoia de 2012. Conheço centenas de pessoas que realmente acreditam que é possível que o mundo acabe. Quando eu discordo, me perguntam se eu não vejo as notícias e as loucuras do clima e do planeta e das pessoas nos últimos anos. Pera aí...que notícias??? Que noticiário???? Aqueles sensacionalistas???? Não mesmo, não vejo. Prefiro ver notícias provenientes de pessoas sérias, canais sérios e, sempre, SEMPRE, o outro lado da história. Todos os casos, ou fatos, têm seu lado B. Aliás, todos nós temos um lado B. Acho que se eu não fosse professora de inglês e estudante de ciência, tecnologia e engenharia, seria, com certeza, uma cantora de Cabaret. Meio Pin Up, até (só não engulo, de maneira alguma, que a Sandy tenha um lado devassa ... não mesmo.... até a Luluzinha consegue ser mais devassa do que ela, rsrsrsrsrsrsrs).


Os que crêem nas profecias dos antigos Maias ou os fatalistas apocalípticos sempre olham o pior lado das coisas. Mas, o que diz a Nasa sobre isso??? E os mais sérios cientistas, inclusive Brasileiros???? Alguém foi atrás da explicação deles para o mito do planeta X (Nibiru) estar vindo pelo sistema solar e provocar as maiores catástrofes em 2012??? Não.... preguiça. O alarmismo é mais interessante. O factóide e sensacional atraem mais expectadores que não conseguem encontrar explicações simples e óbvias para todas as coisas e correm esbaforidos anunciando o dia do juízo final. Eles não entendem que o que aumentou não foram os extremos climáticos ou sísmicos, mas sim os celulares com câmeras fotográficas, as câmeras digitais a preço de banana e as câmeras de segurança espalhadas por todo o universo. Não posso nem coçar a bunda discretamente mais porque tem uns 27 técnicos de olho rsrsrsrsrs. Enfim, os desastres naturais estão apenas mais aparentes devido ao arsenal tecnológico que carregamos. Nos esquecemos da aspirina e da carteira de motorista .... mas não do celular com câmera com não sei quantos pixels. Até onde eu sei, terremotos de grandes proporções acontecem todos os anos, há milhares de anos...quiçá milhões. Tsunamis, idem. Chuvas torrenciais com inundações majestosas, idem. Explosões solares ..... a cada 11 anos. É só contar. Mais pessoas morrem a cada ano porque a cada ano tem mais gente no mundo. Um simples planejamento familiar ajudaria aqui. Mais pessoas morrem a cada ano porque a cada ano tem mais gente morando onde não deveriam e cada vez mais políticos fazendo vista grossa. Então .... o mundo vai acabar sim, pra mim, no dia em que eu acabar rsrsrsrs. E só.

Bem que Sagan disse, '...o mundo anda assombrado pelos demônios...mas com a ciência como uma vela no fim do túnel ....' (ótimo livro, aliás).

Enfim, ele, o meu aluno, me perguntou, “e você, Dri, do que tem medo?”. Olhei bem fundo nos lindos olhos cor de amêndoas dele e respondi, com a maior sinceridade, “pra ser sincera, XXXX, estou morrendo de medo daquela barata que vi passando ali fora, perto da janela ... acho que vou chamar alguém”. E, saí.

domingo, 13 de março de 2011

A loucura de Sabrina

Sabrina não queria se casar... muito menos ser mãe. Não havia nela o instinto maternal, apesar de já ser balzaquiana. Gostava mesmo era da independência que almejara ainda pequena, quando ouvia todos dizerem que quando adulta, deveria se casar e ter filhos. Sabrina queria carreira, não família. Sabrina era livre.... tinha conseguido.


Há muitos anos, Sabrina tinha uma relação especial com um homem. Ele, assim como ela, não queria saber de responsabilidades matrimoniais e, muito menos, paternais. E, assim, viviam felizes entre gozos nababescos e loucuras adolescentes, mesmo já tendo deixado a puberdade há décadas.

Cobranças havia de todas as partes. Mas, os dois viviam num mundo particular... extremamente deles somente. E, entre abraços e beijos e lençóis, esse paraíso privado testemunhava calores e suores da amizade tida como colorida.

Um dia, porém, o fantasma de uma gravidez indesejada pairou sob a cabeça de Sabrina que, fisiologicamente, era por demais regulada. Mas, alguns dias de atraso trouxeram pensamentos de uma vida nunca imaginada antes. Sabrina ... mãe ??? Não podia ser.....como poderia ter se descuidado ?????

Sozinha com seus medos, começou a analisar como seria a provável situação. Como seria colocar um novo ser humano nesse mundo apoplético, cheio de desvios ??? E o instinto maternal ???? Onde estava ???? Ele simplesmente não existia porque Sabrina havia decidido, já há muito, que essa possibilidade não fazia parte de sua lista para a vida. Não queria.

Se o problema se confirmasse, no entanto, assumiria. Seria um desafio a enfrentar...com garra. A primeira atitude seria, com certeza, chorar. Um descuido desses nessa idade ???? Segundo....comunicaria o outro responsável...sem cobranças, claro. Sabrina era independente...não dependia. Terceiro, anunciar aos quatro cantos a proeza !!!!

Alguns dias depois, no trabalho, Sabrina percebeu um pequeno sangramento...aquele pelo qual esperava com tanta ansiedade. Alívio, felicidade. Aleluia. Alarme falso. Ficou feliz.

De repente...uma lágrima. Interessante.....a lágrima era de tristeza !!!! De vazio !!! E Sabrina percebeu que estava confusa. O que vai ser daqui pra frente ??????

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Pensar sobre a vida


"Bom mesmo é ir à luta com determinação, abraçar a vida e viver com paixão....." (Chaplin)

domingo, 19 de dezembro de 2010

O voo de Sabrina

Tudo pago. Sabrina decidiu que, antes de voar, todas as suas contas deveriam estar pagas. Pelo menos, não queria dar trabalho a quem ficasse. Aliás, não gostava de incomodar seus pares. Deu tudo o que tinha na geladeira para que pudesse desligá-la da tomada. Não queria seu lindo apartamento cheirando comida estragada. Tirou todos os seus aparelhos eletrônicos das tomadas. Assim, não haveria problema algum com curto-circuito ou gastos desnecessários de força com aquelas malditas luzinhas de standby que nunca se apagam e iluminam a casa à noite. Dormir tornou-se uma aventura. Tudo o que Sabrina queria era escuridão. Paz.


Cuidou para que não ficassem roupas sujas. Ninguém precisaria lavá-las. O apartamento estava limpíssimo. Impecável. De novo, odiaria ter que sair e deixar trabalho para os outros.

Tomou uma ducha quente. O banho, desta vez, foi demorado. E muito. Gostaria de estar limpa quando fosse. Não somente limpa. Cheirosa. Três gotas de seu melhor perfume. Cabelos brilhantes com cremes e secador. Colocou seu vestido mais lindo. Sapatos pretos de saltos médios. Os comprara uns dias antes, sem saber que decidiria viajar. Jamais imaginaria que aquele par de sapatos pelo qual se apaixonara seria seu companheiro na jornada a que se submetera alguns dias mais tarde ao deitar-se. Simplesmente decidiu, é isso, é minha única saída.


Impecavelmente vestida e com uma leve maquiagem, o que mais se destacava em Sabrina era a coragem evidenciada em sua calma e em seus olhos com um brilho de futura felicidade eterna. Paz.

Foi até a sacada de sua sala de estar e do alto do décimo andar, admirou a magnífica vista noturna da cidade. Como era linda. Seria a última vez que a apreciaria. Aproximou-se do beiral e deu um suspiro como se quisesse absorver todos os odores da urbe ao mesmo tempo, só para senti-los mais uma vez.

Delicadamente, sentou-se na beirada com as pernas para o infinito e, com uma única lágrima fugindo do olho direito, voou.

Era a única saída. Paz.

Lá embaixo, um sapato preto de salto médio caía solitário no meio fio da avenida movimentada. Paz.


quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

A beleza do cinza



    O céu azul costumava ser imperativo. Azul royal. Sem nuvens. O sol, único elemento do cenário ideal. Esse era o contexto de um dia perfeito para muita serotonina, a substância "mágica", calmante e sedativa. Uma verdadeira droga lícita. Exagero de bom humor. Céu para boas músicas e bons livros. E a vida seguia ao sabor de uma leve e fresca brisa.
    Alguém, no entanto, diz que é bom apreciar o dia cinzento, nublado. Frio. Garoa. Ficava em êxtase. Há poesia neste contexto também. Apesar de não concordar a princípio, a declaração parte de alguém demais interessante, com ideias atrativas e mente brilhante. Alguém que não diz sem incertezas. Confio nesse alguém.
    O céu cinzento traz melancolia, nostalgia, saudades. Denota uma beleza triste, mas uma tristeza admirável. O céu cinzento e nublado começa a ganhar simpatia e respeito. O contexto mudou.
    O céu azul já não é mais imperativo. Onde está a garoa gelada batendo em meu rosto enquanto a vida segue ao sabor dos passos apressados da metrópole megalomaníaca?

   

sábado, 29 de maio de 2010

O céu

A estrada estava fascinantemente escura. Somente os faróis de eventuais carros quebravam o breu que não permitia delimitar o asfalto do acostamento da mata de árvores altas do céu de todo o resto. Mas, no alto, a visão era completamente diferente. Parecia uma loja de cristais tamanha intensidade do brilho. Brilhos de inúmeros corpos cintilantes.
O firmamento é algo nababesco. A maioria das pessoas olha para o alto e vê apenas “lampadinhas” fixas na abóbada celeste. Nem imaginam que, na verdade, olham para planetas, estrelas, nebulosas, zilhões de galáxias, aglomerados, nuvens de gás, pulsares e quasares, que são galáxias tão distantes quanto a idade do universo, medida aos bilhões de anos. Olham para poeira estelar (somos feitos, literalmente, de poeira estelar), berçários de estrelas, anãs brancas e marrons, supernovas e tantas outras coisas fantásticas. Nem imaginam que veem luzes provenientes de estrelas há muitos milhões de anos mortas, ou seja, que estão olhando para o passado sem precisar de nenhuma máquina do tempo fantástica. Pois bem, olhar para o alto é viajar no tempo. Nem imaginam que estão lá coisas tão bizarras quanto buracos negros, matéria escura e energia escura. Não imaginam que as “lampadinhas” não estão fixas, coladas no grande manto negro, e, sim, viajam a milhões de quilômetros por hora. Não imaginam que somos tão pequenos e insignificantes diante do tamanho infinito do cosmos e ao mesmo tempo sortudos e preciosos porque existimos, provavelmente por um acaso de perfeitas e aleatórias reações químicas e leis da física. Não imaginam que um dia o sol explodirá e não haverá mais planeta Terra, porque isso acontece aos montes na imensidão cósmica. É tudo muito superlativo e pouco importa-se com esta pessoa que o admira em uma mera viagem por uma estrada fascinantemente escura, que simplesmente consegue ver e apreciar na sua frente a o alto da janela do carro, a via-láctea. Olhar para o céu é, além de tudo, poético.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Reminiscências

Memórias podem ser perigosas. Podem trazer reminiscências de tempos de extrema felicidade da qual já não fazemos mais parte. E, ao cair perturbador da realidade, abre-se um vazio ilícito, daqueles em que a explicação é mais obscura e misteriosa do que a energia escura que banha o universo...e, não a enxergamos e muito menos a compreendemos. Mas, sofremos. Mesmo sem saber porque. Como entoou "aquele cantor", cujo nome não me recordo, "...o que passou, passou. Não importa. Ficou do outro lado da porta...pra nunca mais....". A saída é olhar para frente. Sempre. E, deixar as agruras do passado que nos excitavam e nos entusiasmavam para os álbuns de fotografia guardados em armários raramente abertos. Porque as fotos já não me fazem mais rir. Só me lembram que o tempo está passando e envelheço a cada palavra escrita.
O passado é, muitas vezes, lindo nas fotos, somente.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

A doença

Nunca havia se esquecido de nada. Nunca. Mas, naquele dia, não se lembrou do nome do único filho que lhe visitava todos os sábados. Não se lembrava que tinha um filho adulto. Não se lembrou também que tinha uma neta de doze anos que se chamava Larissa e que passava todas as férias com ela. Não se lembrou que o marido, companheiro de tantos anos, havia já morrido há muito tempo e insistia que ele se encontrava no quintal dos fundos com seu filho, cuidando da horta.
Naquele sábado, não sabia quem eram aqueles estranhos que a chamavam de mãe e vovó e ficou com medo. Eram completamente desconhecidos em sua sala de estar.
Disse que seu marido estava lá no fundo e que já ia chamá-lo, já se virando e indo a passos largos. Abriu a porta da cozinha e lá estava o marido, jovem, bonito, loiro de olhos azuis, esguio, usando um chapéu de palha já bem batido. Abaixado, cuidava de uns pés de couve. Era o que ele fazia todos os sábados. De repente, do outro lado do quintal, vinha correndo o menino, seu único filho. Tinha nove anos de idade e adorava ajudar o pai a mexer com as plantas. Vestia uma jardineira jeans, uma camisa branca de mangas curtas e estava descalço. Adorava andar descalço pelo quintal. Carregava uma colher de pedreiro que o pai havia pedido para ir buscar. E eles se embrenhavam na terra fofa, algumas vezes atolando os pés na lama. E, depois do serviço feito e imundos de barro, os dois iam correndo para o banho, deixando um rastro de terra por onde passavam deixando a mulher louca, que corria com uma vassoura e um pano úmido enrolado em um rodo atrás da trilha suja, eliminando-a. Mas, limpava sorrindo. Era feliz e achava que tinha uma família feliz. O menino cresceria e teria uma família feliz também.
Esqueceu-se do fogo ligado. O almoço estava quase pronto. Fez o que eles mais gostavam. Arroz, feijão, bife de vaca e bata-frita. O cheiro da comida pronta aguçava todos os sentidos triviais de momentos que não queria que passassem nunca. Tinha que durar para sempre, apesar de querer ver o menino virar homem e continuar sua história. Apagou os fogos acesos do fogão e já ia em direção do banheiro pedir para os dois se apressarem, pois havia dois estranhos, um homem alto e loiro e uma menina, na sala de estar. Estava com medo, pois eles diziam coisas desconexas. Estava angustiada.
Na sala de estar, o filho enxugava as lágrimas.

domingo, 18 de outubro de 2009

Serenidade


Sereno entardecer
de um domingo qualquer
no meio da metrópole
barulhenta e silenciosa
num estranho paradoxo
paulistano!

Fantasma reaparece

Outro fantasma de um outro passado aparece para me assombrar com lembranças há muito esquecidas. Que bom que foi só um sonho. Mas, as memórias que ficaram são bem reais. Memórias estas de um tempo de muita paixão que não voltam mais. Estava o fantasma de olhos claros a pensar em mim, também? Será que nossas lúcidas aventuras se guardam em algum canto de seu coração??????

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

O encontro

Diana marcou um encontro com um estranho. Completo desconhecido. Porque a solidão falou mais alto. O desejo incontrolável de uma companhia, nem que fosse por uma noite apenas, inconscientemente tomou conta de seu total poder de controle, calculismo e estabilidade emocional. Talvez estes problemas em demasia fossem resultados da sociedade moderna em que as pessoas, às vezes, não conhecem nem os próprios vizinhos. Pode ser por falta de tempo, demanda de tarefas ou, simplesmente, falta de costume de conhecer pessoas.
Diana não foi a uma agência de encontros. Nem fez sua propaganda em páginas especializadas de jornais ou revistas para tais fins. Diana era uma mulher moderna. “Conheceu” o rapaz numa sala de bate-papo na rede mundial de comunicação, a Internet.
Era uma tarde de sexta-feira. Havia uma entediante espera num consultório, cujo médico já estava mais de uma hora atrasado. Diana estava inquieta. Queria sumir dali. “Onde está o médico?”. A falta de paciência estava se agravando com a tortura que era a espera pela segunda-feira, pois, no fim de semana, com certeza, não sairia com os amigos – não tinha muitos e quase todos eram casados – não sairia para dançar sozinha, não iria ao cinema sem companhia, não sairia para jantar – ocuparia apenas um lugar na mesa –, não faria nada. Seria o mesmo marasmo do final de semana anterior, e do anterior.....
Remarcou a consulta para outro dia. Deixou o consultório e decidiu que mudaria sua vida.
Foi a uma cafeteria, dessas do tipo cibercafé e solicitou um computador. Tomou um café enquanto digitava o endereço eletrônico do provedor mais famoso do país, escolheu uma sala virtual, um apelido sugestivo e caiu no oceano cibernético como tantos outros navegadores solitários, ou apenas curiosos, com apelidos nada convencionais. Bateu papo com o ‘Misterioso’, ‘Gostosão/SP’ , ‘Átila’, ‘Deus grego’, ‘Saradão do ABC’, etc. havia outros piores.
Conheceu o ‘Ulisses’. Este, sim, parecia ser um homem sincero e decente. Carente, contudo. Mas, existe sinceridade em conversas virtuais? Todos são perfeitos, inteligentes, dedicados, solteiros e com uma lista infinita de adjetivos que fazem com que pareçam reais deuses nórdicos pós-modernos. Ulisses era, depois de trinta minutos de ‘conversa’, Rogério. Dentista de São Paulo – que bom, tão perto – com um relacionamento de oito meses terminado há apenas duas semanas. Carente, na maior dor de cotovelo. Perfeito. Mais vinte minutos de perguntas e respostas, Diana deu o número de seu telefone celular. Iria para o carro. Ele ligaria em dez minutos. Do café até o estacionamento, parecia uma eternidade. Verificou se o telefone estava mesmo ligado, com bateria suficientemente carregada e tropeçou. Quase caiu. Estava nervosa. Escutaria a voz de seu príncipe encantado virtual que se dizia chamar Rogério, mas, verdade? Seria esse mesmo o seu nome? Seria realmente solteiro. Dane-se, conversaria com o ‘Rapaz’. Ele finalmente ligou. Linda voz.
Apesar da nova e excitante experiência, Diana, por ser uma pessoa sensata, tinha consciência de que príncipes e princesas de contos antigos não existem. Não precisam ser sapos, mas, são seres humanos com as mesmas convicções e defeitos que ela também possuía. Será que o ‘Rapaz’ não estaria fazendo as mesmas indagações a respeito de Diana neste exato momento? Ela estava certa que sim.
Marcaram um encontro em um bar meio badalado a meio caminho dos dois no domingo, à tarde.
O sábado foi angustiante para Diana. Maldita espera. Ele iria? Como seria? Que roupa? Que batom? Para uns, seria apenas mais um encontro. Para outros, poderia ser “o” encontro. Não queria criar falsas expectativas. Angústia. Esta, então, justificada.
Domingo, finalmente. A hora enfim chega. Diana encontra o ‘Rapaz’ já degustando uma bebida. Ela está nervosa. Acende um cigarro. Ele também. Ela demora em escolher o que beber. Já sabia, na verdade, o que queria, mas, não conseguia encontrar o nome correto do drink no cardápio. Era um coquetel com chocolate e uísque. O garçom já estava ficando impaciente. A situação já estava ficando embaraçosa. Achou. Ufa! Começaram a conversar, quer dizer, ele começou. Ela, aos poucos, se acalmou. Ele não era nenhum Adônis. Ela, tampouco, Afrodite. Mas eram sexy, cada um a sua maneira.
Uma hora depois, um conhecia do outro particularidades, aventuras, idiossincrasias e virtudes. Risos. Mais uma bebida. Mais alguns cigarros e começaram a se beijar. Precisavam de mais privacidade, pois os beijos estavam ficando cada vez mais ardentes e molhados. Foram para o carro dele. Algo chamou a atenção de Diana. Involuntariamente, ele abriu a porta para ela. Uma gentileza. Um perfeito cavalheiro. Era assim sempre ou só estava tentando impressionar? Não interessa. Diana só queria ser agarrada e muito beijada.
O carro era limitado demais para tanto desejo e tesão inflando a ponto de explodir. Ele sugeriu. Ela aceitou sem pestanejar. Foram para um motel. O carro fervia de tanto calor, tesão.
Diana esquecera-se de quem era. Esqueceu-se da profissional bem sucedida, chefe, sempre elegantemente vestida, sempre no controle de suas ações e emoções, sempre sutil, objetiva e sensata. Naqueles momentos, ela era uma devassa. Entregou-se totalmente a coisas que jamais fizera com os poucos homens com quem havia saído anteriormente. Loucura. Volúpia. Gozos nababescos. Desconcerto. Caos. Seu falso Adônis era um semideus realizando suas fantasias. Ela, uma selvagem Ártemis. Chega de Afrodite.
Fim do tempo e da diversão. Um banho para limpar os vestígios de tanto erotismo. Saíram. Ele a levou de volta ao seu carro estacionado perto do bar onde se encontraram. Dois completos desconhecidos no fim da tarde que, no fim da noite, conheciam os desejos e fantasias mais secretas um do outro. Aquilo que nem os amigos mais íntimos, de longa data, imaginam que temos. E, todos temos.
Despediram-se com um longo e ardente beijo. Ela saiu do carro dele. Voltaram a ser os dois estranhos de antes. Não houve promessas de se verem novamente, ou mesmo de ligarem no dia seguinte. Incógnita. Todavia, Diana estava contente por ter feito algo no fim de semana. Algo diferente do programa sofá-TV ao qual estava acostumada a fazer há tanto tempo. Tanto tempo sozinha...... Este foi um bom fim de semana.
Segunda-feira. Diana, profissional bem sucedida, chefe, elegantemente vestida com um terninho preto, camisa branca de gola grande, sapato social de salto alto e bico fino, no total controle de suas ações, sutil, objetiva e sensata. Com muito trabalho a fazer e tarefas a coordenar e distribuir entre seus fiéis subordinados. Era gerente.
Ele não havia ligado. Ela, nem pensado em fazê-lo. Ligar ou não ligar? Não importa. Já sabia como passar um fim de semana excitante. Era só ligar o computador, inventar um apelido mitológico e deixar a imaginação e a sensualidade aflorarem. Tudo isso, numa sexta-feira no final da tarde, de preferência.
Meio-dia. Hora do almoço. Diana parou tudo o que estava fazendo e foi comer alguma coisa. Não era por fome, realmente. Queria sentar-se. Estava cansada. Quase cochilou à mesa. O domingo fora muito exaustivo.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

O casamento

Quase nada preparado. Faltava ainda muito tempo para a cerimônia que simbolizaria a eterna união de duas almas – metades que selariam a longa procura de duas almas-gêmeas e uma completaria a outra e viveriam felizes para sempre e...... A noiva, e só ela, acreditava realmente nessa pieguice toda, segundo o noivo. Ela era muito sonhadora e romantizava tudo. Vivia num perfeito mundo cor-de-rosa onde o otimismo reinava e caras feias não passavam nem pelo portão da frente. O noivo acreditava que a noiva sofria de alguma síndrome pré-casamento, de alguma ilusão deletéria pré-nupcial. É incrível o que as novelas e os filmes água-com-açúcar fazem para desacreditar as mulheres da vida real que de rosa não tem nada. Mas, que seja feita a vontade da noiva.
Consultas e orçamentos. O casamento de princesa não sairia nada barato. Podia-se comprar um carro novo, mas o castelo imaginário e a festa pomposa para falsos súditos a deixariam mais feliz. Que seja feita a vontade da noiva.
Em seu fichário, grosso já, o planejamento estava separado por categorias. Havia as categorias igreja, vestido, festa, bolo, cardápio, convites e convidados – o noivo queria no máximo 50, a noiva tinha uma lista com 250 nomes – músicas para a recepção e, finalmente, a categoria lua-de-mel. Durante meses as categorias engordavam seus recheios com datas, tamanhos, preços, disponibilidades e quaisquer substantivos que dessem mais detalhes ao item correspondente. E, durante todos esses meses, o fichário recebia muito mais atenção do que o noivo, que já começava a refletir se realmente havia sido uma boa ideia ter feito o pedido de casamento e concordado em abrir mão de uma cerimônia simples para poucas pessoas em pró de uma megafesta para simplesmente fazer e acontecer. A noiva o havia convencido usando velhos argumentos de pura pressão psicológica como, por exemplo, o fato de que toda mulher sonhava em se casar de branco, de branco e na igreja. É como se ela devesse isso para a família e para a sociedade. Tinha que mostrar que havia conseguido. Que era uma vencedora. Para o noivo, tudo bobagem. Porém, que seja feita a vontade da noiva.
Ele tinha lá seus compromissos. Trabalhava o dia todo e, algumas noites por semana, havia o curso de línguas que não podia perder para se destacar mais na empresa. Mas, as cobranças começaram. Da parte dela, claramente. “Você não liga muito pro nosso casamento”, “Você não dá palpite em nada” – esquecendo-se de que sempre que pedia uma opinião a ele, nunca concordava com a resposta e estabelecia que sua escolha era melhor. Ela era irredutível. Então, por que perguntava? Ele se perguntava. E, ela continuava, “Você podia matar aula esta semana para visitarmos alguns salões para a festa, não?”. Ela se esquecia do próprio trabalho, às vezes, devaneando com seu fichário de conto de fadas com final feliz. Ela realmente acreditava. Que seja feita a vontade da noiva.
Meses se passaram, as brigas aumentaram, assim como os custos. Quanto mais perto do rito, a reserva encarecia. Os detalhes eram muitos. Apareciam coisas que os próprios noivos desconheciam como, por exemplo, os patês teriam base de creme-de-leite ou maionese? Tanto trabalho, tanto tempo perdido e dinheiro gasto para uma decisão estapafúrdia – maionese ou creme-de-leite – para meia-dúzia de torradas e algumas horas de festa. Sem falar na questão da lua-de-mel. O noivo queria um lugar mais agitado, mais quente. A noiva, frio e, se possível, deserto. Que seja feita a vontade da noiva...mais uma vez.
Já nem namoravam mais. Quando tinham um tempinho livre, ele queria um cineminha, restaurante. Só namorar. Sentia falta do momento a dois. Fazer amor. Ela queria aproveitar o tempinho livre para discutir o casamento, sempre com seu fichário a postos, detalhes do casamento, dúvidas sobre convidar um determinado parente ou não. Se o convidassem, teriam de convidar os namorados e namoradas dos filhos do parente? A lista já ia para 287 pessoas. “Faz o que você quiser, amor”. O noivo já não tinha mais força nem argumento para opinar. Já não se beijavam mais. Ele já não se lembrava mais do gosto da boca dela, da maciez do toque dela. Quem era aquela mulher? Ele não reconhecia mais a velha namorada por quem havia se apaixonado completamente, principalmente pelo seu bom humor. Ela costumava rir muito e já não era mais divertida. Havia ficado fria e calculista. Tudo pelo casamento. Que seja feita a vontade da noiva.
Quase tudo preparado. A igreja acertada, o vestido pronto, Buffet, músicas, convidados. Tudo certo para a lua-de-mel nas montanhas. E, nenhum beijo. Mais algumas semanas e toda essa aporrinhação acabaria. Foi quando a simpática moça da recepção deu bola pro noivo. Ele se encantou. Conversavam, riam contavam histórias..... Numa noite, sozinho, ele chorou. Depois de tudo, ele estava apaixonado. Não mais pela noiva, cujo olhar nem se lembrava mais. Ele queria a moça da recepção.
Uma semana antes do casamento, ele ligou para a noiva. “Não quero mais me casar”. Ela achou que fosse piada. “Minhas férias começam amanhã. Vou para Salvador. Adeus.” E, desligou o telefone. A noiva ficou sem entender direito o que se passava. Achou que ele estava com nervoso pré-nupcial. “Amanhã, ele está mais calmo. Falo com ele”. E, fingiu que a ligação nem mesmo tivesse acontecido. Pobre noiva.
No dia seguinte, o noivo e a moça da recepção voaram para a Bahia. O pacote comprado na agência de turismo em promoção prometia dez dias de muito calor, agitação, prazer e .... Beijos, paixão e sexo. E, melhor, a moça da recepção era divorciada e jamais se casaria novamente.
A noiva, acreditando que o surto do noivo tinha passado, ligou para o seu telefone celular. Desligado. Ligou para a empresa onde ele trabalhava. O combinado é que suas férias começariam na próxima semana. A semana da lua-de-mel. “Ele não vem trabalhar. Pegou férias. Só volta no mês que vem”. Suas pernas começaram a ficar trêmulas. O famoso “frio no estômago” estava forte agora. Tentou a casa dele. Ninguém. Começou a acreditar. E, a chorar também.
E, o casamento, bem...não houve mais casamento.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Quem é feliz?

Perguntei para várias pessoas qual era o conceito de felicidade para elas. Tive as mais diversas respostas. Das mais absurdas como, por exemplo, que a felicidade era simplesmente ter um carro zero quilômetro, de preferência, importado, na garagem, como umas respostas bem interessantes tais como: ser feliz é sair do consultório médico sabendo que a saúde está perfeita; ser feliz é sair do banco tendo conseguido pagar todas as contas em dia; ser feliz é tirar todas as notas azuis; ser feliz é escutar a risada dos filhos....e, por aí vai.
Mas....será que existe SER feliz? Acho que se conseguíssemos ser feliz o tempo todo, morreríamos de espasmos de tanto rir. Acredito verdadeiramente em ESTAR feliz. Que a felicidade é um conjunto de pequenos momentos soberbos. Há momentos em que estamos felizes e outros em que nos sentimos miseráveis. Isso pode acontecer num intervalo tão curto de tempo quanto alguns minutos como num dia, num mês ou num ano.
Por isso, eu sou realista. Eu não sou feliz. Eu ESTOU muito feliz agora, neste exato momento em que escrevo em meu Blog. Daqui dez minutos, só deus sabe.

domingo, 17 de maio de 2009

O dia “NÃO”

Há dias em que, não sei porque, tudo dá errado. O rádio-relógio não funciona e nos atrasamos. A xícara do café vira e o líquido quente e preto se espalha por nossa roupa. A chave do carro está em algum lugar ilícito e o pneu, murcho. Acidentes fazem com que o trânsito, já caótico, se transforme numa terra sem lei. Chefe de péssimo humor e colegas de trabalho que não tem nada de bom pra falar. Somente tragédias pessoais. Verdadeiros vampiros sugadores de qualquer indício de energia positiva. As horas que demoram uma eternidade para passar. Ao final do dia, já em casa, nos damos conta de que foi mais um daqueles dias em que nada se aproveitou. Dia completamente perdido em ilusões e necessidades de mudança. Dia completamente “NÂO”.
Há como evitar? Sim. Não podemos mudar os outros, mas, podemos mudar nós mesmos, mudando nossas atitudes. Acordar mais cedo, por exemplo. Se os colegas vierem com papinhos medíocres, arrume uma desculpa qualquer e caia fora. De vampiro, já chega o governo.
Por isso, sou a favor de qualquer coisa que me garanta um dia “SIM”. E, acredito piamente que dias melhores virão...para mim e para todos.

domingo, 10 de maio de 2009

Entre meus mundos

Alguns anos atrás, na livraria e espaço cultural Alpharrabio, ganhei um livro. Das mãos do próprio autor. Alexandre Takara, depois de me convidar para uma deliciosa cerveja e um bate-papo muito interessante – indignação com esta sociedade tão fútil e consumista – escreveu uma bela dedicatória e me presenteou com seu intrigante trabalho, “Entremundos”. Digo intrigante porque “fala” de Santo André, minha cidade, muito pouco citada em livros. Cidade esta que eu pensava conhecer tão bem. Me enganei. Por isso, o livro me intrigou.
Nasci aqui. Vivo aqui – já são trinta e tantos anos. Pensava conhecer totalmente esta cidade, seus anônimos e seus filhos ilustres. Ledo engano. Há muito ainda por saber. Por um lado, me sinto como uma criança curiosa. Por outro, uma velha que “dormiu no ponto” e deixou passar o ônibus cheio de pessoas interessantes que ajudaram a criar a identidade política e cultural da minha cidade natal. Por isso, não me perdoo.
Um outro ponto no livro que me emocionou também, e muito, foi a nostalgia. Saudades de uma outra cidade citada, esta bem menor, Socorro, que cedeu muitos de seus filhos para a metrópole, especialmente, Santo André. Todo mundo que conheço tem algum parente ou conhece alguém que tem relações com a “Morena da Fronteira”. No meu caso, toda a família de minha avó materna, exceto ela, está lá, sempre de braços abertos para nos receber, os andreenses com corações socorrenses...ou não.
Enfim, um livro que me instigou a estabelecer e organizar melhor minha relação de afeto com minha cidade e melhorar minha identidade como sendo andreense.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Só as sombras do desejo oculto de por pra fora tudo aquilo que me engasga e me sufoca. Contornos perfeitos e desfocados como a ilusão de um dia ser completo. Acho que vou explodir.

O que estou escrevendo

Comecei há mais ou menos dois anos a escrever uma ficção. Minha idéia é de ser um livro com dez capítulos. Já estou terminando o quinto. Escrevo sobre três amigas e seus dissabores pela intrincada malha existencial. Na verdade, ele não é tão ficcional. As estórias são baseadas em fatos ocorridos comigo, com amigos, com alunos meus, conhecidos, parentes e conhecidos de todos eles. Tenho dois possíveis títulos. Ainda estou em dúvida.
Não mostrei a ninguém. Não sei se devo. Algumas vezes, achei que era pretensão minha pensar em escrever, pois não sou da área de humanas. Então, percebi que esse pensamento é um grande erro, pois os escritores nem sempre são letrados. São, certamente, pessoas com histórias para contar, verdadeiras ou não, não sendo relevantes suas profissões ou condição social. Basta ter o que dizer para o mundo, imaginação fértil e um bom editor para corrigir tudo aquilo que supomos correto, mas são verdadeiros tropeços gramaticais. Assassinos da língua estão por toda parte. Não me excluo.
Enfim, pensando nos prós e nos contras, a pretensão se transformou em objetivo de vida. Coloquei a caneta no papel e não parei mais. Escrevi alguns contos também. Não sei o que acontecerá com eles, se algum dia serão publicados e lidos ou fenecerão na segunda gaveta da minha escrivaninha. Mas, a minha parte, para dar sentido a minha vida, já estou fazendo. Do resto, só Deus sabe.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Não esperava vê-lo


As luzes da urbe confusas como minha mente. Fantasma do passado volta e me encontra no elevador. Olho para os lados mas não consigo encarar o fantasma. Ele sorri para mim e pergunta como estou. Quero que ele se dissolva em meu corpo...me envolva...me dê êxtase. Tenho que partir. As portas do elevador se fecham levando meu fantasma consigo. Ele voltará a me assombrar?

domingo, 26 de abril de 2009

Pôr-do-sol


Numa tarde de domingo, o magnífico pôr-do-sol visto de uma janela numa rua tranquila de Santo André. O céu está tão limpo que pode-se ver as torres da Avenida Paulista e, até mesmo, o Pico do Jaraguá. Tão longe e tão perto. Sinto que se eu esticar minha mão, toco as luzes dos arranha-céus. Se pular, dou a volta no mundo.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

O outono é pura melancolia

Adoro o outono. É a minha estação favorita. Folhas caem. Não é muito quente nem muito frio. É perfeito. De dia, o céu é mais azul. Quase não há nuvens. À noite, o céu é mais estrelado. Adoro abrir a janela do meu quarto no fim do verão e sentir o sopro daquele ventinho meio friozinho, que arrepia o corpo anunciando a chegada da mais bela das estações (em minha opinião) em algumas semanas.
Como o verão foi de muitos exageros e êxtase, “uso” o outono para uma fase de retidão para uma “reformulação”. Gosto de reformular, repensar em muitas coisas que preciso melhorar, ou em outras que preciso mudar completamente. Adoro passar uma tarde típica de outono fazendo planos para o próximo verão, mesmo que nenhum deles se concretize de fato.
Assim como o outono é uma fase de transição entre o calor e o frio, gosto de pensar que eu também posso mudar em alguns aspectos. Quem sabe emagrecer um pouco? Começar um novo curso, uma nova língua? Que tal uma limpeza no guarda-roupa? Não acredito nesse negócio de “eliminar energias negativas”. Tudo balela. Acredito sim, que deve ter muitas roupas que não usamos mais e muita gente sem ter o que vestir. E o frio se aproxima.
Que tal dar um tempo aos lugares convencionais e conhecermos novos locais? Um novo cinema, um novo restaurante, um novo parque. Um novo corte de cabelo. Que tal dar um tempo também para a televisão e começar a apreciar bons livros?
E, apreciar o pôr-do-sol do outono é um espetáculo à parte. É algo fantástico. No horizonte, ele está enorme e de uma coloração alaranjada ou avermelhada intensa e imponente.
É por tudo isso que adoro o outono. Vai ser sempre minha estação preferida.

domingo, 12 de abril de 2009

O suicídio

Uma noite dessas, sonhei que vi um suicídio. Eu estava no corredor de um prédio qualquer e, ao passar em frente a porta do elevador, escutei um tiro. Parei. A porta abriu. Lá estava um jovem caído com um tiro na cabeça e a arma, saindo fumaça, na mão direita. Escorria muito sangue. Fiquei desesperada. Peguei meu telefone e tentava ligar para a polícia mas, não conseguia. Típico de sonho. Quer dizer, de pesadelo. Pois, na verdade, não foi um sonho. Tive um pesadelo em que vi um suicídio.
Gostaria de saber o que isso significa. Eu nem conhecia o rapaz. Eu não quero cometer suicídio. Na verdade, eu não quero morrer. Gostaria de ser imortal para testemunhar o futuro da humanidade – ou da desumanidade. Quero saber aonde vamos parar. O mundo vai melhorar ou piorar? Vou ter que andar armada ou vou poder caminhar à noite no centro da cidade tranquilamente sem ser incomodada? Vou contar com uma aposentadoria que me permita uma vida confortável ou mendigar uma maca nos corredores dos hospitais públicos?
Eu não quero descobrir que o suicídio do meu sonho – pesadelo – signifique que eu estou perdendo a esperança em meu país. Quero acreditar que dias melhores virão.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Essas Mulheres

Me desaponta muito o que muitas mulheres vêm fazendo com elas mesmas. É como se tivessem colocado na testa uma etiqueta com um preço e um aviso “Mercadoria pronta para consumo”.
Saudades dos anos 70 e 80 quando as mulheres resolveram cortar as amarras que as prendiam aos afazeres domésticos. Decidiram usar suas faculdades mentais para crescerem profissionalmente. Grandes nomes femininos agitaram as conturbadas décadas de 70 e 80 com suas armas mais poderosas: seu cérebro e sua língua. Falaram. Soltaram o verbo. Expuseram suas opiniões e, quem tentasse calá-las, elas mordiam. Falavam de homens, sexo, gozar, carreira...e afins.
Anos 90. Retrocesso. Algumas perceberam que pensar cansa. Estúpidas. Melhor mostrar os peitos e a bunda e ganhar dinheiro mais facilmente.
Presente. Foi aí que a “coisa” desandou. Para fazer sucesso a qualquer preço, expõem-se de maneira descomunal não se importando com o rótulo “mulher objeto” e, principalmente, com o adjetivo “burra”. As “mulheres frutas” estão aí para exemplificar. Quando a exposição de seus corpos já está desgastada, começam, então, a cantar (músicas apelativas). Eu me pergunto quem escuta essa merda (nem sempre música é arte). Não que vinte anos atrás isso não existia. Quem não se lembra das Chacretes? Mas, hoje, parece que não fazer parte das boazudas, é a exceção.
Não tenho a mínima ideia de onde isso vai parar. Apenas sinto muita pena dessas mulheres porque, quando a mídia já achar que não valem mais a pena, serão esquecidas e substituídas por outras mais apelativas ainda. E, pobres de nós, mulheres comuns com ideias, profissões, ambições e legitimidade, mas, ofuscadas por legiões de analfabetas funcionais e ignorantes por causa de um país que cultua o popular e a boa imagem em detrimento da cultura e da informação.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Saudade de Carl Sagan

Para muitos, o nome Carl Sagan não significa absolutamente nada. Para mim, o contrário. Significa lição de vida. Foi um homem extraordinário que tentou abrir os olhos da humanidade contra um mundo assombrado pelos demônios da ignorância e do obscurantismo em favor da ciência. Teve êxito com muitas pessoas. Falhou com as outras que preferiram as trevas do fanatismo religioso.
Foi com mais ou menos sete anos de idade que o conheci. Jamais o esqueci. Através de sua série para televisão COSMOS, aprendi a olhar para o alto, para o céu, e enxergar além do "paraíso" ao qual eu havia sido apresentada (na verdade, eu nunca acreditei em paraíso celestial). Comecei a me aprofundar na imensidão do cosmos, nos bilhões e bilhões de galáxias compostas de bilhões e bilhões de estrelas e, quem sabe, outros planetas com possibilidades orgânicas e probabilidade de vida inteligente igual ou superior à nossa. Uau....dá para filosofar sobre isso por horas.
Há quem acredite que somos apenas nós. Não há vida lá fora. Eu não acredito nisso. Como disse o próprio Sagan, "se não houver mais ninguém lá fora, é um enorme desperdício de espaço, não?".
Enfim, Sagan me ensinou muito mais do que astronomia e astrobiologia. Me ensinou a prestar mais atenção neste pálido ponto azul que é o nosso planeta, pois, no momento, é o único que temos certeza da existência de vida. Se não cuidarmos dele, o que será de nós? Sagan já previra o aquecimento global nos anos 80. Ninguém o levou a sério. Bom, sabemos o que está acontecendo com o clima.
Sagan deixou saudades. Quando morreu, senti como se tivesse perdido mais do que um mentor. É como se tivesse perdido um amigo.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Um dia especial

Hoje é um dia muito especial para mim. Acabo de escrever meu primeiro livro. Para uns, isso não é nada. Mas para quem sempre sonhou em escrever, um objetivo alcançado. Me sinto mais forte para seguir os outros objetivos a que me designei. Para mim é como se fossem missões. A minha primeira missão foi cumprida. Escrevi uma estória para crianças. Me lembrei de como eu fantasiava com mundos fantásticos quando era pequena. Resolvi colocá-los no papel e, agora, o próximo passo é tentar fazer outras crianças sonhar com mundos mágicos como eu sonhava. Acho que as crianças precisam disso, especialmente, agora, numa realidade tão consumista em que estão vivendo. Totalmente diferente da realidade em que vivi. Quem foi criança nos anos 70 ou 80 sabe do que estou falando. As brincadeiras eram mais inventivas e mais criativas. Frequentemente, brincávamos na rua. Escrevi este livro para tentar resgatar um pouco destas memórias de infância. Espero nunca mais parar.

terça-feira, 31 de março de 2009

Porque leio

Um dia desses, alguém me perguntou por que leio tanto. Sou viciada em leitura. Acho que a melhor resposta seria um ensaio que escrevi para uma revista literária alguns anos atrás. Então, aí vai a resposta:
Não me lembro bem se tinha oito ou nove anos quando li meu primeiro livro: “Raul da ferrugem azul”, de Ana Maria Machado. O nome soou bastante estranho – seria um garoto acometido de ferrugem da cor do céu? Instigada pela curiosidade pura e simples, aventurei-me no mundo do menino Raul que, realmente, descobriu estranhas manchas azuis em seu corpo. Ficou desesperado. Procurou ajuda de amiguinhos (Raul era uma criança), pais, vizinhos, enfim, de quem passasse em seu caminho. O problema é que ninguém via nada de diferente em seu corpo, nem um sinalzinho ou pinta sequer. Muito menos azul. Raul enxergava um problema que ninguém conseguia ver, muito menos entender. Ele percebeu que havia problemas que os adultos não compreendem. Nem os amigos. Seu grande dilema era onde encontrar respostas.
Entendi desde o princípio que as manchas azuis no corpo do menino não eram literais. Eram, na verdade, questionamentos, indagações, dúvidas que toda criança tem. O que elas não têm são respostas.
São dúvidas sobre crescer; enfim, dúvidas sobre a vida.
Todos sabemos o que é a vida, mas quando somos questionados a dar uma definição, as palavras simplesmente desaparecem. Talvez tenhamos alguns verbos, mas não conseguimos encontrar substantivos ou adjetivos que qualifiquem exatamente o que é viver.
Nesta época, assim que acabei de ler o livro (já faz, mais ou menos, vinte anos) perguntei a alguém “o que é viver?”. Esperava ouvir uma resposta simples e objetiva. Qual não foi minha decepção quando me responderam que viver é fazer o que tem que ser feito nos “cada segundo” que temos de vida. Com “cara-de-ponto-de-interrogação”, insisti mais um pouco perguntando o que exatamente eu teria que fazer. A segunda resposta veio tão ilícita quanto a primeira: eu teria que fazer o que os outros dissessem para eu fazer... e pronto! Típica resposta de quem não sabe o que dizer. Ou, talvez eu, uma fedelha, estivesse enchendo o “saco”.
Hoje percebo o óbvio. Estávamos em um período de transição: ditadura – democracia. Na ditadura, as pessoas não pensam, não falam. Apenas fazem porque têm que fazer. Então, eu não culpo, perdôo.
Deixei o mundo de Raul e comecei a me concentrar em meu próprio mundo. Descobri que eu mesma estava coberta de ferrugem. Azul, vermelha, verde. Um arco-íris de dúvidas e perguntas sem respostas. Mas, assim como Raul me mostrou que a ferrugem existe, é certa e verdadeira, também abriu minha mente para procurar o alvejante capaz de clarear o obscuro, o sombrio. Raul fez com que eu entrasse em outros mundos. conhecesse outras personagens. Talvez encontrasse respostas para alguns de meus problemas lendo outros livros. Não parei desde então.
Lendo, comecei a compreender melhor a vida, o ser humano, a história e a pré-história. Descobri o Brasil e o mundo. Descobri a diversidade de etnias, religiões, fauna e flora, governos e pensamentos. Descobri que todos somos iguais e diferentes ao mesmo tempo. Somos coletivos, mas singulares na essência. Descobri o capitalismo, o socialismo e o anarquismo. O machismo, o feminismo, o egoísmo e o altruísmo. Romantismos, realismos, modernismos, dadaísmos, tropicalismos e muitos outros “ismos”. Descobri que amor e sexo são independentes. Que existe ótimo cinema além dos limites das medíocres megaproduções “hollywoodianas”. Descobri que existe vida nas fossas abissais, nos gelos árticos e antárticos, bem como nos calores infernais vulcânicos. Que pode haver vida também em outros planetas, espalhados por duzentos bilhões de galáxias. Descobri que o universo tem quinze bilhões de anos e que há espécies de insetos que nascem, se desenvolvem, copulam, reproduzem e morrem em menos de vinte e quatro horas. Descobri a música, a arte e os artistas e os mais variados ritmos. De Mozart e Ravel a Caetano Veloso, Tom Jobim e o psicodélico Roger Waters. Descobri que a tecnologia pode ser usada para o bem e para o mal. Descobri que se eu não estiver satisfeita, posso reclamar e cobrar para que o serviço seja bem feito. Descobri que bons políticos são poucos. A maioria sempre promete. E só. Descobri que intolerância traz conseqüências desastrosas; principalmente a religiosa. Descobri que homens podem gostar de homens. E mulheres, de mulheres. Descobri que se fala mais de cinco mil línguas e dialetos no mundo. Descobri o mundo fantástico dos deuses e semideuses de mitologias e folclores e suas lendas de como tudo foi criado.
Na adolescência, descobri Marcos Rey, Cecília Meireles, Monteiro Lobato, Machado de Assis, Graciliano Ramos. Depois, vieram Richard Bach, Bukowisky, Eça de Queiroz, Camões, Jorge Amado e Zélia Gattai (com seus anarquistas...), Andrade, Alves, Pessoa, Lispector, Teles, Luft, Sagan, Christie, Kafka, Kundera, Ubaldo, Eco, Bronte, Wilde, Darwin, Tolstoi, Hesse, Shakespeare, Flaubert, Hemingway, Trevisan e o mais recente, Alexandre Takara, entre tantos outros que não vêm à minha memória no momento. Mas jamais me esqueço o quanto todos eles me narraram. Tantas descobertas!!! E, em todas essas descobertas, obtive muitas de minhas tão desejadas respostas, mesmo sabendo que tenho muito a descobrir e muitos autores a conhecer ainda.
É por isso que leio.