quinta-feira, 19 de novembro de 2009

A doença

Nunca havia se esquecido de nada. Nunca. Mas, naquele dia, não se lembrou do nome do único filho que lhe visitava todos os sábados. Não se lembrava que tinha um filho adulto. Não se lembrou também que tinha uma neta de doze anos que se chamava Larissa e que passava todas as férias com ela. Não se lembrou que o marido, companheiro de tantos anos, havia já morrido há muito tempo e insistia que ele se encontrava no quintal dos fundos com seu filho, cuidando da horta.
Naquele sábado, não sabia quem eram aqueles estranhos que a chamavam de mãe e vovó e ficou com medo. Eram completamente desconhecidos em sua sala de estar.
Disse que seu marido estava lá no fundo e que já ia chamá-lo, já se virando e indo a passos largos. Abriu a porta da cozinha e lá estava o marido, jovem, bonito, loiro de olhos azuis, esguio, usando um chapéu de palha já bem batido. Abaixado, cuidava de uns pés de couve. Era o que ele fazia todos os sábados. De repente, do outro lado do quintal, vinha correndo o menino, seu único filho. Tinha nove anos de idade e adorava ajudar o pai a mexer com as plantas. Vestia uma jardineira jeans, uma camisa branca de mangas curtas e estava descalço. Adorava andar descalço pelo quintal. Carregava uma colher de pedreiro que o pai havia pedido para ir buscar. E eles se embrenhavam na terra fofa, algumas vezes atolando os pés na lama. E, depois do serviço feito e imundos de barro, os dois iam correndo para o banho, deixando um rastro de terra por onde passavam deixando a mulher louca, que corria com uma vassoura e um pano úmido enrolado em um rodo atrás da trilha suja, eliminando-a. Mas, limpava sorrindo. Era feliz e achava que tinha uma família feliz. O menino cresceria e teria uma família feliz também.
Esqueceu-se do fogo ligado. O almoço estava quase pronto. Fez o que eles mais gostavam. Arroz, feijão, bife de vaca e bata-frita. O cheiro da comida pronta aguçava todos os sentidos triviais de momentos que não queria que passassem nunca. Tinha que durar para sempre, apesar de querer ver o menino virar homem e continuar sua história. Apagou os fogos acesos do fogão e já ia em direção do banheiro pedir para os dois se apressarem, pois havia dois estranhos, um homem alto e loiro e uma menina, na sala de estar. Estava com medo, pois eles diziam coisas desconexas. Estava angustiada.
Na sala de estar, o filho enxugava as lágrimas.

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