quarta-feira, 2 de setembro de 2009

O casamento

Quase nada preparado. Faltava ainda muito tempo para a cerimônia que simbolizaria a eterna união de duas almas – metades que selariam a longa procura de duas almas-gêmeas e uma completaria a outra e viveriam felizes para sempre e...... A noiva, e só ela, acreditava realmente nessa pieguice toda, segundo o noivo. Ela era muito sonhadora e romantizava tudo. Vivia num perfeito mundo cor-de-rosa onde o otimismo reinava e caras feias não passavam nem pelo portão da frente. O noivo acreditava que a noiva sofria de alguma síndrome pré-casamento, de alguma ilusão deletéria pré-nupcial. É incrível o que as novelas e os filmes água-com-açúcar fazem para desacreditar as mulheres da vida real que de rosa não tem nada. Mas, que seja feita a vontade da noiva.
Consultas e orçamentos. O casamento de princesa não sairia nada barato. Podia-se comprar um carro novo, mas o castelo imaginário e a festa pomposa para falsos súditos a deixariam mais feliz. Que seja feita a vontade da noiva.
Em seu fichário, grosso já, o planejamento estava separado por categorias. Havia as categorias igreja, vestido, festa, bolo, cardápio, convites e convidados – o noivo queria no máximo 50, a noiva tinha uma lista com 250 nomes – músicas para a recepção e, finalmente, a categoria lua-de-mel. Durante meses as categorias engordavam seus recheios com datas, tamanhos, preços, disponibilidades e quaisquer substantivos que dessem mais detalhes ao item correspondente. E, durante todos esses meses, o fichário recebia muito mais atenção do que o noivo, que já começava a refletir se realmente havia sido uma boa ideia ter feito o pedido de casamento e concordado em abrir mão de uma cerimônia simples para poucas pessoas em pró de uma megafesta para simplesmente fazer e acontecer. A noiva o havia convencido usando velhos argumentos de pura pressão psicológica como, por exemplo, o fato de que toda mulher sonhava em se casar de branco, de branco e na igreja. É como se ela devesse isso para a família e para a sociedade. Tinha que mostrar que havia conseguido. Que era uma vencedora. Para o noivo, tudo bobagem. Porém, que seja feita a vontade da noiva.
Ele tinha lá seus compromissos. Trabalhava o dia todo e, algumas noites por semana, havia o curso de línguas que não podia perder para se destacar mais na empresa. Mas, as cobranças começaram. Da parte dela, claramente. “Você não liga muito pro nosso casamento”, “Você não dá palpite em nada” – esquecendo-se de que sempre que pedia uma opinião a ele, nunca concordava com a resposta e estabelecia que sua escolha era melhor. Ela era irredutível. Então, por que perguntava? Ele se perguntava. E, ela continuava, “Você podia matar aula esta semana para visitarmos alguns salões para a festa, não?”. Ela se esquecia do próprio trabalho, às vezes, devaneando com seu fichário de conto de fadas com final feliz. Ela realmente acreditava. Que seja feita a vontade da noiva.
Meses se passaram, as brigas aumentaram, assim como os custos. Quanto mais perto do rito, a reserva encarecia. Os detalhes eram muitos. Apareciam coisas que os próprios noivos desconheciam como, por exemplo, os patês teriam base de creme-de-leite ou maionese? Tanto trabalho, tanto tempo perdido e dinheiro gasto para uma decisão estapafúrdia – maionese ou creme-de-leite – para meia-dúzia de torradas e algumas horas de festa. Sem falar na questão da lua-de-mel. O noivo queria um lugar mais agitado, mais quente. A noiva, frio e, se possível, deserto. Que seja feita a vontade da noiva...mais uma vez.
Já nem namoravam mais. Quando tinham um tempinho livre, ele queria um cineminha, restaurante. Só namorar. Sentia falta do momento a dois. Fazer amor. Ela queria aproveitar o tempinho livre para discutir o casamento, sempre com seu fichário a postos, detalhes do casamento, dúvidas sobre convidar um determinado parente ou não. Se o convidassem, teriam de convidar os namorados e namoradas dos filhos do parente? A lista já ia para 287 pessoas. “Faz o que você quiser, amor”. O noivo já não tinha mais força nem argumento para opinar. Já não se beijavam mais. Ele já não se lembrava mais do gosto da boca dela, da maciez do toque dela. Quem era aquela mulher? Ele não reconhecia mais a velha namorada por quem havia se apaixonado completamente, principalmente pelo seu bom humor. Ela costumava rir muito e já não era mais divertida. Havia ficado fria e calculista. Tudo pelo casamento. Que seja feita a vontade da noiva.
Quase tudo preparado. A igreja acertada, o vestido pronto, Buffet, músicas, convidados. Tudo certo para a lua-de-mel nas montanhas. E, nenhum beijo. Mais algumas semanas e toda essa aporrinhação acabaria. Foi quando a simpática moça da recepção deu bola pro noivo. Ele se encantou. Conversavam, riam contavam histórias..... Numa noite, sozinho, ele chorou. Depois de tudo, ele estava apaixonado. Não mais pela noiva, cujo olhar nem se lembrava mais. Ele queria a moça da recepção.
Uma semana antes do casamento, ele ligou para a noiva. “Não quero mais me casar”. Ela achou que fosse piada. “Minhas férias começam amanhã. Vou para Salvador. Adeus.” E, desligou o telefone. A noiva ficou sem entender direito o que se passava. Achou que ele estava com nervoso pré-nupcial. “Amanhã, ele está mais calmo. Falo com ele”. E, fingiu que a ligação nem mesmo tivesse acontecido. Pobre noiva.
No dia seguinte, o noivo e a moça da recepção voaram para a Bahia. O pacote comprado na agência de turismo em promoção prometia dez dias de muito calor, agitação, prazer e .... Beijos, paixão e sexo. E, melhor, a moça da recepção era divorciada e jamais se casaria novamente.
A noiva, acreditando que o surto do noivo tinha passado, ligou para o seu telefone celular. Desligado. Ligou para a empresa onde ele trabalhava. O combinado é que suas férias começariam na próxima semana. A semana da lua-de-mel. “Ele não vem trabalhar. Pegou férias. Só volta no mês que vem”. Suas pernas começaram a ficar trêmulas. O famoso “frio no estômago” estava forte agora. Tentou a casa dele. Ninguém. Começou a acreditar. E, a chorar também.
E, o casamento, bem...não houve mais casamento.

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