terça-feira, 5 de maio de 2015

Amores perros


         Quando a porta bateu e o enfeite, ganho da tia Hermínia no último aniversário, caiu e espatifou-se, ela teve a certeza de que esta tinha sido realmente a última vez que ele sairia e não voltaria. Foi tão intenso e soberbo e violento que ela se assustou e percebeu que jamais tinha sido assim.

         Das outras vezes, ele saía, fechava delicadamente a porta e até a trancava. Ela sabia que ele voltaria ... arrependido e precisando. Flores.

Mas, agora ... vaso despedaçado.

         A porta se fechara e se selara. Os bons tempos esvaiam-se cuidadosamente pela estrutura de madeira que separava seu aconchego do mundo lá fora. Mundo cruel e vazio e insensível que o engolia para sempre ... para longe dela ... para nunca mais.

         Outros haviam aparecido e invadido. Acomodaram-se em sua casa, seu coração, sua cama. Mas, ao partirem, pediam permissão, pois o amor já não mais cabia em suas parvas vidas. Os amantes tornavam-se casmurros e o amor esmaecia. 
Imagine a paixão ... que é doença. Tudo desaparecia e eles partiam em paz. E ela ficava taciturna e feliz ... em paz.

         Mas ele ... ele era diferente. Ele era para sempre. Amor eterno. Paixão equilibrada. Corpos ardentes, sexo tântrico, gozo nababesco, gritos ensurdecedores. Dependência moral ... doença.


         Só ela não percebia. Ela não podia amar. Ela só podia ... ser.

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