segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Água que lava a alma

O poder da fé move montanhas ... alguém disse uma vez. E a fé num santo - ou santa -  nem se fala. Severo ganhou uma santinha da moça da igreja que, no fundo, queria mesmo é chamar sua atenção. Queria casar. Mas Severo só queria uma oportunidade de estar longe daquela terra nordestina, seca e arreganhada. Nem um pingo d’água em mais de um ano. Seus bois sucumbiam um a um. Miséria. Chorava ... mas suas lágrimas eram só de sal. Queria partir. Deus abandonara Severo, seus bois, sua gente. Mandava água para outros lugares.
Severo, então, levantou a santinha aos céus, e não tinha a mínima ideia de qual santa era, e implorou, “Vai santinha .... me tira daqui ... há de me tirar ... há de me tirar ...”. No dia seguinte, vendeu os dois últimos bois caquéticos. Conseguiu o suficiente para a passagem de ônibus. Arrumou a parca malinha, não tinha muito. E, com o maior cuidado, enrolou a santinha num pedaço velho de flanela. Era seu amuleto. Tinha lhe concedido um milagre. O tiraria de lá.
Grande desafio. São Paulo, a terra das oportunidades ... e das águas. Nada o seguraria nesse fim de mundo seco e rachado. Nem a moça da igreja. Esta, chorou e morreu de tristeza. Lágrimas ressequidas.
São Paulo, a selva de pedra. Muita gente e caos. Mas tinha confiança. Sobreviveria. A santinha no bolso e a fé no coração.
Sede. Água engarrafada, cara demais para um retirante miserável. Bebedouros secos. Chafarizes há muito sem uma gota de água. Meses sem chuva, racionamentos, banhos escassos. Severo não entendia o que estava acontecendo, “Onde está a água de São Paulo?”. Avistou a mais linda das Catedrais, a da Sé. Resolveu entrar e rezar um pouco. Viu que até a pia para reza estava seca, “Por quê, meu Deus ... por quê?”.
Desolado, saiu da grande igreja e olhou para o céu. Dali, olhando o horizonte, viu a imponência de um altíssimo edifício, um banco estadual outrora, e viu que, lá em cima, estaria muito mais perto do céu. Tinha outro pedido a fazer. Embrenhou-se nas ruas centrais do imenso labirinto paulistano. Perdeu-se. Perguntou. E encontrou o imenso prédio. Duas horas de espera depois, foi informado de que teria apenas cinco minutos de contemplação lá no alto. Bastava .... para salvar a humanidade.

Do mirante acima do mar de cimento preto e branco e insensível, estendeu aos céus cinzentos as mãos que embalavam sua tão querida santinha. Severo não titubeou, “Vai santinha ... manda água .... há de vir ... há de vir ...”.

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