domingo, 19 de dezembro de 2010

O voo de Sabrina

Tudo pago. Sabrina decidiu que, antes de voar, todas as suas contas deveriam estar pagas. Pelo menos, não queria dar trabalho a quem ficasse. Aliás, não gostava de incomodar seus pares. Deu tudo o que tinha na geladeira para que pudesse desligá-la da tomada. Não queria seu lindo apartamento cheirando comida estragada. Tirou todos os seus aparelhos eletrônicos das tomadas. Assim, não haveria problema algum com curto-circuito ou gastos desnecessários de força com aquelas malditas luzinhas de standby que nunca se apagam e iluminam a casa à noite. Dormir tornou-se uma aventura. Tudo o que Sabrina queria era escuridão. Paz.


Cuidou para que não ficassem roupas sujas. Ninguém precisaria lavá-las. O apartamento estava limpíssimo. Impecável. De novo, odiaria ter que sair e deixar trabalho para os outros.

Tomou uma ducha quente. O banho, desta vez, foi demorado. E muito. Gostaria de estar limpa quando fosse. Não somente limpa. Cheirosa. Três gotas de seu melhor perfume. Cabelos brilhantes com cremes e secador. Colocou seu vestido mais lindo. Sapatos pretos de saltos médios. Os comprara uns dias antes, sem saber que decidiria viajar. Jamais imaginaria que aquele par de sapatos pelo qual se apaixonara seria seu companheiro na jornada a que se submetera alguns dias mais tarde ao deitar-se. Simplesmente decidiu, é isso, é minha única saída.


Impecavelmente vestida e com uma leve maquiagem, o que mais se destacava em Sabrina era a coragem evidenciada em sua calma e em seus olhos com um brilho de futura felicidade eterna. Paz.

Foi até a sacada de sua sala de estar e do alto do décimo andar, admirou a magnífica vista noturna da cidade. Como era linda. Seria a última vez que a apreciaria. Aproximou-se do beiral e deu um suspiro como se quisesse absorver todos os odores da urbe ao mesmo tempo, só para senti-los mais uma vez.

Delicadamente, sentou-se na beirada com as pernas para o infinito e, com uma única lágrima fugindo do olho direito, voou.

Era a única saída. Paz.

Lá embaixo, um sapato preto de salto médio caía solitário no meio fio da avenida movimentada. Paz.


2 comentários:

Marcelo Pirajá Sguassábia disse...

Oi, Drica. Seu blog continua ótimo, sua pena é mágica. Um beijo pra você.

Drica Bonaldo disse...

Obrigada, Marcelo. Espero que essa pena nunca suma. Abçs