quarta-feira, 9 de setembro de 2009

O encontro

Diana marcou um encontro com um estranho. Completo desconhecido. Porque a solidão falou mais alto. O desejo incontrolável de uma companhia, nem que fosse por uma noite apenas, inconscientemente tomou conta de seu total poder de controle, calculismo e estabilidade emocional. Talvez estes problemas em demasia fossem resultados da sociedade moderna em que as pessoas, às vezes, não conhecem nem os próprios vizinhos. Pode ser por falta de tempo, demanda de tarefas ou, simplesmente, falta de costume de conhecer pessoas.
Diana não foi a uma agência de encontros. Nem fez sua propaganda em páginas especializadas de jornais ou revistas para tais fins. Diana era uma mulher moderna. “Conheceu” o rapaz numa sala de bate-papo na rede mundial de comunicação, a Internet.
Era uma tarde de sexta-feira. Havia uma entediante espera num consultório, cujo médico já estava mais de uma hora atrasado. Diana estava inquieta. Queria sumir dali. “Onde está o médico?”. A falta de paciência estava se agravando com a tortura que era a espera pela segunda-feira, pois, no fim de semana, com certeza, não sairia com os amigos – não tinha muitos e quase todos eram casados – não sairia para dançar sozinha, não iria ao cinema sem companhia, não sairia para jantar – ocuparia apenas um lugar na mesa –, não faria nada. Seria o mesmo marasmo do final de semana anterior, e do anterior.....
Remarcou a consulta para outro dia. Deixou o consultório e decidiu que mudaria sua vida.
Foi a uma cafeteria, dessas do tipo cibercafé e solicitou um computador. Tomou um café enquanto digitava o endereço eletrônico do provedor mais famoso do país, escolheu uma sala virtual, um apelido sugestivo e caiu no oceano cibernético como tantos outros navegadores solitários, ou apenas curiosos, com apelidos nada convencionais. Bateu papo com o ‘Misterioso’, ‘Gostosão/SP’ , ‘Átila’, ‘Deus grego’, ‘Saradão do ABC’, etc. havia outros piores.
Conheceu o ‘Ulisses’. Este, sim, parecia ser um homem sincero e decente. Carente, contudo. Mas, existe sinceridade em conversas virtuais? Todos são perfeitos, inteligentes, dedicados, solteiros e com uma lista infinita de adjetivos que fazem com que pareçam reais deuses nórdicos pós-modernos. Ulisses era, depois de trinta minutos de ‘conversa’, Rogério. Dentista de São Paulo – que bom, tão perto – com um relacionamento de oito meses terminado há apenas duas semanas. Carente, na maior dor de cotovelo. Perfeito. Mais vinte minutos de perguntas e respostas, Diana deu o número de seu telefone celular. Iria para o carro. Ele ligaria em dez minutos. Do café até o estacionamento, parecia uma eternidade. Verificou se o telefone estava mesmo ligado, com bateria suficientemente carregada e tropeçou. Quase caiu. Estava nervosa. Escutaria a voz de seu príncipe encantado virtual que se dizia chamar Rogério, mas, verdade? Seria esse mesmo o seu nome? Seria realmente solteiro. Dane-se, conversaria com o ‘Rapaz’. Ele finalmente ligou. Linda voz.
Apesar da nova e excitante experiência, Diana, por ser uma pessoa sensata, tinha consciência de que príncipes e princesas de contos antigos não existem. Não precisam ser sapos, mas, são seres humanos com as mesmas convicções e defeitos que ela também possuía. Será que o ‘Rapaz’ não estaria fazendo as mesmas indagações a respeito de Diana neste exato momento? Ela estava certa que sim.
Marcaram um encontro em um bar meio badalado a meio caminho dos dois no domingo, à tarde.
O sábado foi angustiante para Diana. Maldita espera. Ele iria? Como seria? Que roupa? Que batom? Para uns, seria apenas mais um encontro. Para outros, poderia ser “o” encontro. Não queria criar falsas expectativas. Angústia. Esta, então, justificada.
Domingo, finalmente. A hora enfim chega. Diana encontra o ‘Rapaz’ já degustando uma bebida. Ela está nervosa. Acende um cigarro. Ele também. Ela demora em escolher o que beber. Já sabia, na verdade, o que queria, mas, não conseguia encontrar o nome correto do drink no cardápio. Era um coquetel com chocolate e uísque. O garçom já estava ficando impaciente. A situação já estava ficando embaraçosa. Achou. Ufa! Começaram a conversar, quer dizer, ele começou. Ela, aos poucos, se acalmou. Ele não era nenhum Adônis. Ela, tampouco, Afrodite. Mas eram sexy, cada um a sua maneira.
Uma hora depois, um conhecia do outro particularidades, aventuras, idiossincrasias e virtudes. Risos. Mais uma bebida. Mais alguns cigarros e começaram a se beijar. Precisavam de mais privacidade, pois os beijos estavam ficando cada vez mais ardentes e molhados. Foram para o carro dele. Algo chamou a atenção de Diana. Involuntariamente, ele abriu a porta para ela. Uma gentileza. Um perfeito cavalheiro. Era assim sempre ou só estava tentando impressionar? Não interessa. Diana só queria ser agarrada e muito beijada.
O carro era limitado demais para tanto desejo e tesão inflando a ponto de explodir. Ele sugeriu. Ela aceitou sem pestanejar. Foram para um motel. O carro fervia de tanto calor, tesão.
Diana esquecera-se de quem era. Esqueceu-se da profissional bem sucedida, chefe, sempre elegantemente vestida, sempre no controle de suas ações e emoções, sempre sutil, objetiva e sensata. Naqueles momentos, ela era uma devassa. Entregou-se totalmente a coisas que jamais fizera com os poucos homens com quem havia saído anteriormente. Loucura. Volúpia. Gozos nababescos. Desconcerto. Caos. Seu falso Adônis era um semideus realizando suas fantasias. Ela, uma selvagem Ártemis. Chega de Afrodite.
Fim do tempo e da diversão. Um banho para limpar os vestígios de tanto erotismo. Saíram. Ele a levou de volta ao seu carro estacionado perto do bar onde se encontraram. Dois completos desconhecidos no fim da tarde que, no fim da noite, conheciam os desejos e fantasias mais secretas um do outro. Aquilo que nem os amigos mais íntimos, de longa data, imaginam que temos. E, todos temos.
Despediram-se com um longo e ardente beijo. Ela saiu do carro dele. Voltaram a ser os dois estranhos de antes. Não houve promessas de se verem novamente, ou mesmo de ligarem no dia seguinte. Incógnita. Todavia, Diana estava contente por ter feito algo no fim de semana. Algo diferente do programa sofá-TV ao qual estava acostumada a fazer há tanto tempo. Tanto tempo sozinha...... Este foi um bom fim de semana.
Segunda-feira. Diana, profissional bem sucedida, chefe, elegantemente vestida com um terninho preto, camisa branca de gola grande, sapato social de salto alto e bico fino, no total controle de suas ações, sutil, objetiva e sensata. Com muito trabalho a fazer e tarefas a coordenar e distribuir entre seus fiéis subordinados. Era gerente.
Ele não havia ligado. Ela, nem pensado em fazê-lo. Ligar ou não ligar? Não importa. Já sabia como passar um fim de semana excitante. Era só ligar o computador, inventar um apelido mitológico e deixar a imaginação e a sensualidade aflorarem. Tudo isso, numa sexta-feira no final da tarde, de preferência.
Meio-dia. Hora do almoço. Diana parou tudo o que estava fazendo e foi comer alguma coisa. Não era por fome, realmente. Queria sentar-se. Estava cansada. Quase cochilou à mesa. O domingo fora muito exaustivo.

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